4º capítulo
‘’Garota, você é estranha. ’’
J.
Passei apressada pela enorme portaria, tentando não derrubar minha bolsa, a chave do apartamento, a carteira e meu rímel. Acenei para o manobrista com a cabeça, que caminhou de encontro a mim e me entregou as chaves do carro. Devo ter deixado algo cair no caminho. Entrei no meu Porsche de cor prata, novíssimo e acelerei.
Estava concentrada nas ruas quando algum dos meus cinco aparelhos eletrônicos começou a apitar. Olhei para minha bolsa e abri-a com uma mão. Voltei o olhar para a direção. Um carro que dirigia lentamente na minha frente estava começando a me irritar. Liguei o piloto automático e voltei a procurar meu celular. Não era um, não era outro. Quando o encontrei e voltei a dirigir, tive a impressão de não sair do lugar. Buzinei nervosíssima, e atendi. Era uma amiga minha que queria desabafar. Enquanto ela falava, eu afundava no banco e buzinava em vão.
-... Disse que não queria, mas não pude evitar. Ele é tão perfeito, amiga! Você precisa ver!
- Mal posso esperar. – Minha voz assemelhava-se a um zumbido. Mas ela não percebia, irritante.
- Pois é! Aproveitando a oportunidade, deixa eu te falar! Sabe quem vai casar? Aquela... – A voz dela ia sumindo aos poucos que o barulho da buzina ia se tornando natural aos meus ouvidos. Estava completamente irritada e decidi acelerar. De algum dos lados eu passo essa barbeira! Tirei do piloto automático e acelerei. Para a minha imensurável sorte do dia, o carro da frente freou, fazendo com que meu pára-choque se estraçalhasse e quase atropelasse alguma retardada, que abriu a porta e colocou a perna para fora. Tudo o que eu precisava era me atrasar mais, ótimo. Maravilha.
Desliguei o celular na cara de... Alguém, e saí do carro, irritadíssima. Uma garota morena, mas de pele branquíssima, coberta por tatuagens veio em minha direção. Quando estava perto o suficiente, não consegui conter minha irritação.
- Você é louca? Quer morrer? – Berrei, enquanto ela espremia os olhos e afastava o rosto lentamente. Teria sido bonitinho em algum outro momento.
- Calma! Eu pago o prejuízo... – Respondeu calmamente o que eu não perguntei.
- Foda-se o carro! Você tem idéia que eu deveria estar em outro lugar agora? – Arqueou a sobrancelha.
- Você acabou de bater um Porsche... E esta reclamando que esta atrasada? – Perguntou, abismada. Aos poucos quem estava dentro do carro vinha se juntar a ela.
- É, mais do que atrasada! – Gritei, revirando os olhos e imaginando onde foi que enfiei meu celular antes de sair do carro.
- Garota, você é estranha. – Opinou a tatuada, que me olhava como se eu fosse de outro mundo.

