33º capítulo
‘‘I hold your hand, close my eyes ’’ – Sonata Arctica .
A.
Tentei não parecer envergonhada, mas tinha certeza de que não consegui. Fiquei gaguejando até conseguir pronunciar algo.
- Fo-Fotos? Que fotos? - Minha risada forçada fazia com que eu
parecesse mais patética.
- Ah, aquelas com a moça bonita, que ficavam ali. - Apontou. Tentei rir de novo, mas acabou parecendo um cachorro engasgado.
- Aquelas fotos... Ah, entendi... Quais fotos. - Estalei os dedos. - Pois é! Ficaram... Velhas, né. - Velhas? VELHAS? Não poderia ter dito qualquer outra coisa? Tipo, QUALQUER outra coisa. Mas claro,
quando fotos ficam velhas, você as joga fora. Faz todo o sentido.
- Hum. - Arqueou uma sobrancelha. Lembrei-me do que ela disse e de que não havia entendido o apelido.
- Mas... Dona Flor? - Percebi que Julieta ficou sem jeito.
- Ah... Deixa pra lá. Não sei porque disso isso. Ha... Ha. - Foi até o balcão e apoiou-se, ficando um pouco
curvada, por ser bem mais alta que o apoio.
- Sabe sim. Me conta. - Dei a volta e apoiei também, ficando de frente para ela. Senti nossas mãos se tocando, e simultaneamente segurando uma na outra.
- É só que... Dona Flor e seus dois maridos, sabe? - Corou - E, parece que você tem uma mulher e um homem, ou algo assim, sei lá. Aquele cara, e a moça das fotos, entendeu? Foi só uma brincadeira. Não quis me meter, não tenho nada a ver. Sou só a palavra pra você, sabe? - Arqueei a sobrancelha e nem tive tempo de perguntar. - Amiga! Quero dizer, amiga. - Atropelou as palavras e fiquei tentando entender o que ela disse. - Acho que eu devia ir embora agora.
- Por que? - Sorri.
- Desculpa se parece que me meti na sua vida. - Soltou as mãos das minhas, passou-as sobre o rosto e saiu de perto do balcão. Dei a volta novamente e parei perto dela.
- Ainda bem que você se meteu na minha vida. - Aproximei os lábios e beijei sua bochecha. - Agora para de querer ir embora, e aproveita o dia comigo, tá?
- Ér... Aham. - Demorou alguns segundos para abrir os olhos, e mais ainda para olhar nos meus novamente. - Mas e o Cody? E seu trabalho?
- Não preciso trabalhar hoje. Tem bastante gente lá no estúdio. E o Cody está com o Joe, vai ficar bem. - Olhou-me, séria.
- Sabe, eu não tenho nada a ver com isso, e também não entendo nada de crianças... Mas eu sei que o que ele está comendo esses dias não é nem um pouco saudável. Sem contar o que ele não está comendo. - Comecei a me sentir mal por isso. Sabia que ela tinha razão, mas me irritava o fato de que eu não tenho essa obrigação.
- Não sei como cuidar de uma criança. E não pretendia que isso acontecesse.
- Tudo bem, você não tem culpa. Mas ele também não, certo? - Percebi que ela estava tentando entender direito a história.
- É... Não tem. - Olhei para baixo. Como se fosse um criança levando bronca da mãe.
- Então vamos fazer isso direito. - Sorriu. - Eu ajudo você com as alimentações, tá bem? Na verdade, acho que é na única coisa que posso te ajudar. - Olhou para o nada. - Ah! - Gritou e olhou para mim novamente. - A não ser que queira ajuda para vesti-lo também.
- É, lógico! - Fiquei animada com o fato de ela querer me ajudar. - Toda criança precisa de roupas.
- Então, pronto! Viu, não é tão difícil. Mas você provavelmente precisará de uma babá pra ficar com ele enquanto você trabalha, sabe? Se quiser eu pago. - Sorriu.
- Já te disse que odeio quando me oferece dinheiro? - Revirei os olhos.
- Desculpa. Só ofereci... Se precisar. - Deu de ombros.
- Tá tudo bem, eu consigo pagar. - Sorri. Pensei por um tempo. - Isso pode ser divertido.
- É... Isso me lembra da época em que eu brincava de bonecas. -
- Nunca brinquei de bonecas... - Dei de ombros e ela riu.