38º capítulo
‘’Desconto?‘’
J.
Estávamos conversando fazia tanto tempo que quase nos esquecemos de ir embora. Ofereci-me para pagar a conta, mas ainda bem que ela não aceitou, pois esqueci que estava sem dinheiro, bolsa, cartão... E para melhorar, eu estava sem dinheiro no banco. Mas, como eu tinha mais contas, e mais cartões em casa, não me preocupei tanto com isso. Era só estranho sair sem nada. E um estranho ruim, pois não tinha o poder de pagar por nada. Nunca, na minha vida, eu passei por isso.
Após sair do restaurante caminhamos pela calçada em silêncio, até que um vendedor, em frente á uma imensa loja de produtos eletrônicos, nos parou com uma voz de locutor de rádio e entregou folhetos de 50% de desconto e informando a chegada de novos produtos importados. Desconto? Produtos novos e importados?
- Quer dar uma olhada? - Perguntei, infelizmente sabendo que não poderia comprar nada. Isso era algo desconhecido...
- Tá bom. - Animou-se e entrou na loja. Até estranhei, ela realmente não comprava esse tipo de coisa, porque na verdade, ela parece não comprar nada... Afinal, o apartamento estava quase vazio.
Entrei atrás dela e observei produtos de cabelo ao fundo da loja. Disse a ela que ja voltava e fui ver alguns. Era uma tortura esse negócio de não ter dinheiro. Pensei em ligar para algum empregado trazer-me dinheiro, e algum dos carros. E aí me lembrei que também não tinha mais celular. Passei pelos aparelhos de celular e fui escolhendo os que iria comprar futuramente. Ou seja, amanhã. Acabei enrolando demais e me perdi de Ange.
Muito tempo depois, encontrei-a na fila para pagar.
- Oi... O que vai comprar? - Passei pela faixa e entrei na fila, ao seu lado.
- Ah.. Oi. - Sorriu. - Precisamos de uma TV pra jogar sábado, né?
- Você não tem uma TV? - Na verdade, isso não era uma surpresa.
- Então, eu até tinha, uma pequena e velha. Mas o Joe levou embora há meses. Na verdade, eu nem estava usando mesmo, estava encaixotada... Então.
- Você está consciente que falta o vídeo-game né?
- Isso eu ainda tenho!
- Você tem...? E não tem uma TV? - Entortei a boca. - Acho que não sou eu a estranha...
- Ah é...
Ficamos rindo e conversando mais algum tempo, enquanto ela pagava e esperávamos a tal televisão ser providenciada. Logo dois homens com camisas iguais, e feias para ser sincera, chegaram com uma caixa imensa e pesada.
- Angélica... Falcão? - Leu lentamente, o mais alto, o nome descrito em um papel meio amassado.
- Sou eu. - Olhei para ela, para a caixa e para ela de novo.
- Assina no risquinho aqui, e aqui também.- Ela o fez, e eles foram embora.
- Como? Só... COMO? - Percebi que ela também não tinha pensado nisso.
- Ah... Eu não sabia que eles não entregavam. - Coçou o pescoço e olhou para a caixa por um minuto. - Bom, só temos uma coisa a fazer.
- Suborná-los para que levem a TV e a gente? - Sorri esperançosamente, mas ela riu. Pegou o celular e ligou para alguém.
- Vem me buscar de carro. - Falou de imediato. Deu até medo. - Trás, ué. - Deu de ombros para mim, como se eu soubesse do que ela estava falando. - Rua da Pizza Hut, aquela loja de eletrônicos, sabe? - Explicou e logo riu. - Tava comprando um ''não interessa''. Vem logo. - Desligou.