28º capítulo
‘’ Mentindo ‘’
J.
Estava cada vez mais perdida, eu era uma idiota. Estava ficando tarde e eu estava ficando cansada de dirigir, tão cansada que vi alguém cair no meu capô e depois no chão e demorei para raciocinar que eu havia atropelado uma pessoa. Parei o carro e pulei para fora indo ver se eu havia matado alguém. Abaixei-me e o homem começou a se levantar como se nada tivesse acontecido. Senti meu cabelo sendo puxado e meu pescoço apertado contra alguém de grande porte. O sujeito que estava caído veio na minha direção e eu não conseguia me mexer, pois alguém estava me segurando.
- O que uma garota tão linda como você está fazendo sozinha aqui? - Aproximou-se e passou os dedos pelo meu pescoço.
- Me solta! - Comecei a me debater inutilmente. - Socorro! - Gritei. Ele colocou a mão sobre a minha boca, nunca senti tanto nojo na minha vida. Quase vomitei.
- Fica quietinha, que eu não corto a sua língua, combinado? - Engoli a seco e parei de me debater, já ofegante. Meu celular começou a tocar.
- Que barulho é esse? - Perguntou o homem que me segurava a força. O outro tirou a mão da minha boca.
- Nada! - Falei alto e voltei a tentar me soltar. Temi que ele quisesse fazer algo contra alguém, pois poucos tinham esse meu número de celular.
- Achei! - Um terceiro homem apareceu com a minha bolsa e meu celular tocando na mão. O que havia tapado minha boca, e parecia ser o que mandava neles, pegou e apertou para atender, ao mesmo tempo sussurrando ''Pareça normal, ou eu mato quem quer que seja."
- Alô? - Atendi tentando fazer minha voz parecer normal, segurando o choro.
- É o maridão rico? - Sussurrou um deles ao meu lado.
- Ju... É a...
- Angélica! - Gritei, pois algo me confortou por algum momento. Completamente sem pensar, fiquei feliz por segundos. - Oi.
- Oi... Você tá bem? - Encarei os olhares de vários marmanjos me fitando. Não consegui falar nada. - Quer dizer, saiu daqui meio abalada.
- Fala, garota. - Sussurrou e me beliscou o que segurava minha bolsa.
- Ah, eu to legal sim. - Respirava com dificuldade, com o cara enorme que segurava meu pescoço.
- Olha, você ta chateada? Porque se estiver, me desculpa. - O sujeito que segurava o celular colou-o na minha boca, talvez para me irritar, não sei.
- Angélica, eu to ocupada. - Tentei ser indiferente, mas minha respiração acelerava cada vez mais.
- O que foi? O que tá acontecendo? - Senti vontade de me enterrar no chão.
- É a namoradinha é? - Riu baixo um dos idiotas.
- Nada... - Consegui falar por pouco, e o homem pressionava meu pescoço cada vez mais. Que ódio. - Vou desligar. - Suspirei.
- Não... - Angélica falou alto. O homem que eu achava ser o ''líder'' deles começou a me chamar por nomes desagradáveis em voz alta. - Quem tá aí? - Perguntou ela, respirei fundo e tentei pensar no que responder. Não deu tempo, o chefe dos nojentos pegou o celular e respondeu por mim.
- Estamos ocupados. - Sorriu para mim e piscou. Grunhi. - Tchau. - Desligou, entregando o celular para o capanga que segurava minha bolsa. - O que foi? Não gostou não? - Se aproximou de mim e colou os lábios no meu rosto. Senti lágrimas escorrendo pela minha face.
- Me deixa ir embora. - Sussurrei. Continuava imóvel, e nem tentava mais sair do lugar.
- Eu decido quando você vai embora. - Aproximou sua boca dos meus lábios, quase tocando-os.
- Por favor, pode pegar tudo o que quiser, só me deixa ir. Não vou dar queixa, eu juro. - Supliquei, meu choro se intensificou na medida em que as palavras saíram pela minha boca.
- Vou fazer uma pergunta, e eu quero que a moça seja bem sincera, tudo bem? - Fiz que sim, ainda quase imóvel. - Você tem muita grana no banco? - Fiz que sim novamente, dessa vez demorando um pouco mais para responder. - Vamos fazer um trato então. Nós vamos ao banco, você me fala sua senha, eu retiro o dinheiro enquanto você espera no carro, e se tudo der certo eu deixo você ir embora.
- Porque eu devo acreditar em você? - Arrisquei. Ele sorriu e acenou para o homem atrás de mim, que me soltou. Respirei fundo e passei as mãos pelo meu pescoço, que estava dolorido.
- Porque estou te dando a minha palavra. - Pegou na minha mão. Quis soltar, mas senti medo. - E eu nunca quebro promessas. - Disse seriamente, olhando fixo para mim.
- Jura que não vão fazer nada comigo, que vão devolver meus pertences pessoais e me deixar ir embora em paz? - Meu coração estava acelerado, mas tentei manter a coragem.
- Prometo que se eu conseguir meu dinheiro, farei tudo isso. - Respirei fundo.
- Ta bom. - Ele voltou a sorrir e me puxou delicadamente para perto do meu carro. Abriu a porta traseira e me apontou para que entrasse, fez o mesmo com um dos outros caras. Escorreguei para o outro lado, mas logo a porta se abriu e um gordo entrou, fechando-me no meio. As portas da frente se abriram rapidamente e os outros dois entraram, com o ''chefe'' dirigindo. Senti-me como em um filme de ação.
- Caso não tenha percebido, o carro agora é meu, tá. - Grunhi. Como se eu realmente estivesse me importando com o carro.
Dei as direções á ele, e no caminho fiquei prestando atenção no grupo. O que estava á minha esquerda era alto, forte e tinha a barba mal feita. Olhava-me pelo canto dos olhos algumas vezes, o que me incomodava. Não havia o visto até que entrasse no carro. Á minha direita, o gordo. Parecia ser o mais nojento e idiota de todos, e pelo que pude enxergar, é o que pegou minha bolsa. Olhei para o seu colo, com alguns dos meus pertences. Celulares, vários eletrônicos inúteis, uma câmera e um par de brincos.
- Onde está a minha bolsa? - Sussurrei para ele. Esforçou-se para puxá-la para fora do espaço entre ele e a porta do carro. Hesitou ao me dar, mas como havia tirado quase tudo, me entregou. Puxei um batom meu, observei-o e percebi que era mais caro que os aparelhos que ele segurava. Ri baixo, guardando-o e voltei a observar os outros dois homens da frente. O que dirigia era o sacana mandão, e o que estava ao seu lado era imenso e forte, tinha certeza que era quem estava me segurando.
Chegamos ao banco 24 horas e o chefe, Renan, que era como todos o chamavam, pegou meu cartão e anotou minha senha. Desceram os dois da frente dando algumas ordens e o gordo tomou a direção. Foi para uma parte escura da rua que virava em um beco, estacionou ali.
- Ei, idiota. Renan mandou uma mensagem mandando tu comprar quatro lanches. - Murmurou quase sem vontade de falar, enquanto guardava o celular.
- Por que sempre eu? - Resmungou, descendo do carro. - Vai fazer isso, vai fazer aquilo... Eu como quatro lanches sozinho! - Grunhiu e saiu, virando a esquina. Observei-o sem muita atenção, suspirei e virei lentamente o rosto. O grandão que restava no carro sorriu, demonstrando a falta de alguns dentes.
- Meu nome é Jonas. - Arqueou uma sobrancelha. Dei de ombros e ele se aproximou. - O que foi? Tá com medo de mim? - Inclinou o corpo por cima do meu, tentei me afastar e ele segurou meus braços.
- Me solta agora! - Gritei. Ele abriu a porta rindo, ainda me segurando e me puxou quase sem esforço nenhum para fora, fazendo minha bolsa voar longe.
- Como a princesa chama? - Sussurrou no meu ouvido, senti um cheiro abominável de seu corpo perto de mim. Não respondi e ele continuou me puxando, entrando cada vez mais no beco. Tentei me soltar mas não consegui. - Não vai falar comigo? - Disse aos risos.
- Eu tenho nojo de você. - Berrei e me soltei de suas mãos por poucos segundos.
- Olha aqui garota! - Segurou-me a força e me empurrou na parede. - Não fala assim comigo. - Aproximou seu rosto, virei-me e ele colou os lábios no meu pescoço. Afastei-me, o que fez com que ele, irritado, me jogasse entre as caixas e latões de lixo que haviam ali. Não consegui me levantar a tempo e ele jogou o peso do seu corpo por cima do meu. Tentei gritar e ele beijou-me a força, quase vomitei novamente quando virei o rosto.
- Me deixa ir embora. - Minha voz mudava conforme eu começava a chorar.
- Acho que não. - Riu novamente. Puxou minha camisa até que se rasgasse.
- Para! - Solucei. O sujeito me ignorou e se abaixou na altura de minhas coxas. Solucei novamente, não conseguia mais falar. Senti suas mãos tentando tirar minha calça, pensei em segurar com alguma força que tinha contra ele, mas quando olhei para frente vi uma sombra se aproximando. Será que eu havia ficado louca?
As lágrimas estavam embaçando os meus olhos, mas ainda assim consegui ver dois homens grandes chegando. Ouvi o som de um tiro, vi e senti vagamente sangue e outras coisas nojentas esparramando-se sobre mim. O resto da cabeça do homem caiu sobre o meu colo e não pude conter um grito que ardeu minha garganta.
- Headshot! - Ouvi um deles comentando.
Não conseguia acreditar em tudo o que estava acontecendo. Renan e o capanga maior se aproximaram e ficaram dizendo que ninguém traía a confiança deles sem ser punido. Levantaram-me e disseram que me deixariam ir embora só porque o assassinato de alguém como eu daria muito o que falar, mas completaram: se fizesse alguma denúncia, voltariam para me matar. Engoli a seco, concordei com tudo, peguei minha bolsa no chão e saí andando.
No momento o que eu conseguia pensar era que eu estava viva, um homem tentou me estuprar, e o mesmo morreu sobre mim. Por sorte, alguma se possível, eu não estava mais perdida.