quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Web novela 2. Capítulo 33.

33º capítulo
‘‘I hold your hand, close my eyes ’’ – Sonata Arctica .

A.
Tentei não parecer envergonhada, mas tinha certeza de que não consegui. Fiquei gaguejando até conseguir pronunciar algo.
- Fo-Fotos? Que fotos? - Minha risada forçada fazia com que eu
parecesse mais patética.
- Ah, aquelas com a moça bonita, que ficavam ali. - Apontou. Tentei rir de novo, mas acabou parecendo um cachorro engasgado.
- Aquelas fotos... Ah, entendi... Quais fotos. - Estalei os dedos. - Pois é! Ficaram... Velhas, né. - Velhas? VELHAS? Não poderia ter dito qualquer outra coisa? Tipo, QUALQUER outra coisa. Mas claro,
quando fotos ficam velhas, você as joga fora. Faz todo o sentido.
- Hum. - Arqueou uma sobrancelha. Lembrei-me do que ela disse e de que não havia entendido o apelido.
- Mas... Dona Flor? - Percebi que Julieta ficou sem jeito.
- Ah... Deixa pra lá. Não sei porque disso isso. Ha... Ha. - Foi até o balcão e apoiou-se, ficando um pouco
curvada, por ser bem mais alta que o apoio.
- Sabe sim. Me conta. - Dei a volta e apoiei também, ficando de frente para ela. Senti nossas mãos se tocando, e simultaneamente segurando uma na outra.
- É só que... Dona Flor e seus dois maridos, sabe? - Corou - E, parece que você tem uma mulher e um homem, ou algo assim, sei lá. Aquele cara, e a moça das fotos, entendeu? Foi só uma brincadeira. Não quis me meter, não tenho nada a ver. Sou só a palavra pra você, sabe? - Arqueei a sobrancelha e nem tive tempo de perguntar. - Amiga! Quero dizer, amiga. - Atropelou as palavras e fiquei tentando entender o que ela disse. - Acho que eu devia ir embora agora.
- Por que? - Sorri.
- Desculpa se parece que me meti na sua vida. - Soltou as mãos das minhas, passou-as sobre o rosto e saiu de perto do balcão. Dei a volta novamente e parei perto dela.
- Ainda bem que você se meteu na minha vida. - Aproximei os lábios e beijei sua bochecha. - Agora para de querer ir embora, e aproveita o dia comigo, tá?
- Ér... Aham. - Demorou alguns segundos para abrir os olhos, e mais ainda para olhar nos meus novamente. - Mas e o Cody? E seu trabalho?
- Não preciso trabalhar hoje. Tem bastante gente lá no estúdio. E o Cody está com o Joe, vai ficar bem. - Olhou-me, séria.
- Sabe, eu não tenho nada a ver com isso, e também não entendo nada de crianças... Mas eu sei que o que ele está comendo esses dias não é nem um pouco saudável. Sem contar o que ele não está comendo. - Comecei a me sentir mal por isso. Sabia que ela tinha razão, mas me irritava o fato de que eu não tenho essa obrigação.
- Não sei como cuidar de uma criança. E não pretendia que isso acontecesse.
- Tudo bem, você não tem culpa. Mas ele também não, certo? - Percebi que ela estava tentando entender direito a história.
- É... Não tem. - Olhei para baixo. Como se fosse um criança levando bronca da mãe.
- Então vamos fazer isso direito. - Sorriu. - Eu ajudo você com as alimentações, tá bem? Na verdade, acho que é na única coisa que posso te ajudar. - Olhou para o nada. - Ah! - Gritou e olhou para mim novamente. - A não ser que queira ajuda para vesti-lo também.
- É, lógico! - Fiquei animada com o fato de ela querer me ajudar. - Toda criança precisa de roupas.
- Então, pronto! Viu, não é tão difícil. Mas você provavelmente precisará de uma babá pra ficar com ele enquanto você trabalha, sabe? Se quiser eu pago. - Sorriu.
- Já te disse que odeio quando me oferece dinheiro? - Revirei os olhos.
- Desculpa. Só ofereci... Se precisar. - Deu de ombros.
- Tá tudo bem, eu consigo pagar. - Sorri. Pensei por um tempo. - Isso pode ser divertido.
- É... Isso me lembra da época em que eu brincava de bonecas. -
- Nunca brinquei de bonecas... - Dei de ombros e ela riu.

Web novela 2. Capítulo 32.




















32º capítulo
''Algo diferente.''

J.
Cody era tão fofo que quase me dava vontade de ter filhos. Tudo bem, nem tanto. Mas ele era bem agradável. Quando percebi que só estávamos nós duas no corredor, senti-me constrangida. Não sabia o que fazer ou dizer. A única coisa que vinha em minha mente era explicar o motivo de um gameboy ter saído da minha bolsa.
- É que eu vi em uma loja, e aí deu vontade, sabe? - Sorri meio forçado. Estava absolutamente deslocada do mundo naquele momento.
- Tá bom. A gente compra outro pra você depois. - Sorriu.
- Não! - Praticamente berrei. - Quer dizer, só estava explicando, sabe? - Enrolei a ponta do meu cabelo com os dedos, e senti gotas de água caindo no chão.
- Acho que tenho um secador de cabelos em alguma caixa. - Observou. Olhou ao redor.
- Não precisa, eu já tava indo... De verdade. - Tentei parecer alguém que realmente queria ir embora, mas continuei parada. Ela riu baixo e aproximou-se.
- Você está bem? - Tocou meu braço direito e senti arder.
- Ai! - Puxei involuntariamente para olhar. - O que é? - Estiquei o pescoço e virei o braço, vendo grande parte dele ralado e vermelho. Estava horrível.
- Está ralado, mas não é nada demais. Quer que eu passe alguma coisa pra você? Tenho alguma coisa para fazer curativo aqui... - Coçou o pescoço e olhou para suas várias caixas. - Ou talvez uma farmácia seria mais fácil, mas eu vou com você.
- Não... Tá tudo bem, de verdade. Relaxa. - Estava absolutamente certa de que iria á algum lugar para tirar isso do meu braço mais tarde. Um dermatologista saberia como cicatrizar mais rápido, certo? Percebi que estávamos em silêncio por algum tempo. - Você disse que queria conversar.
- Ah, é! Isso. Então... - Mordeu os lábios. - Não sei o que dizer, é só que...
- Quer saber o que aconteceu ontem. - Pressionei meus lábios um contra o outro.
- Sou toda a ouvidos. Se quiser falar, claro. - Mordeu a ponta da unha. Suas unhas eram todas quebrada, era engraçadinho. - É que eu não sei o que fazer ou falar, porque não sei o que houve, entende? - Olhei para o chão e comecei a lembrar do que houve. - Desculpa! Não devia ter falado nada. Só fiquei meio... Preocupada. - Senti minhas pálpebras ficando úmidas. Ainda não conseguia olhar pra cima. Outra gota caiu no chão, mas dessa vez era uma lágrima. - Eu realmente posso procurar o secador. - Acabei rindo e olhei para ela. - Ah não, o que eu falei? Não chora. - Estava mais perto e secou minhas lágrimas com seus dedos branquinhos.
- Você não fez nada. - Encarei seus olhos, quase não piscava. - Nada de errado.
- Isso tem a ver com ontem? Ou com... A gente? - Acabei rindo. Acho que de nervosismo.
- Então existe um ''a gente''? - Angélica desviou o olhar e seu rosto emrubreceu imediatamente.
- Ah, é que, sabe...!? Tem algo... Diferente! Entende?
- Algo diferente? - Sorri.
- É! - Franziu a testa - Não sou boa em explicar coisas.
- Tudo bem... Meus problemas não tem nada a ver com você. Não é sua culpa eu estar assim. - Voltei a ficar séria.
- Isso é um alívio. Mas ainda não queria que ficasse assim por nenhum motivo. - Pegou minha mão. - Não quer falar, não tem problema. Mas tenta esquecer isso, então. Tá bom?
- Tá... - Impossível. Ela sorriu. Pensei em outro assunto, e lembrei de ter visto a parede vazia. - Então, a Dona Flor tirou as fotos da parede? - Ri baixo.

sábado, 6 de agosto de 2011

Web novela 2. Capítulo 31.


31º capítulo

‘‘This time I got it all figured out,
All I know is that I don't know nothing.. ’’ – Green Day.

A.
Depois de toda a explicação, Joe olhava para mim de muitos modos diferentes, e eu não conseguia entender o que estava pensando.
- Fala alguma coisa. - Tentei.
- Não sei o que dizer. - Entortou a boca.
- Como não? Que tipo de amigo é você Jo? - Olhei-o com um desespero fingido.
- Sinceramente? Você não queria um encontro, e arranjou uma namorada e um filho pra morar com você?
- Eles não estão morando aqui. - Fiz cara de brava.
- Ela tá tomando banho no seu banheiro e ele dormindo no seu colchão. - Ergueu as sobrancelhas algumas vezes rapidamente.
- Tá, Joe. Sei que eu to mudando um pouco o jeito de pensar, e tentando superar você-sabe-quem...
- Só você para namorar o Voldemort. - Sorriu e eu o ignorei. - Peraí...Você disse tentando superar? - Arregalou os olhos.
- É, mas não se anime... Ainda não sei...
- Julieta. Ela sabe?
- Mais ou menos... Só que eu morava com alguém e...
- E ela está aí... - Pensou. - Ai meu Deus! Você tirou as fotos! - Fingi que não tinha entendido mas ele abriu a porta do apartamento e saiu correndo para ver se eu havia mesmo tirado as fotos. Corri atrás dele e tentei segurá-lo mas acabamos os dois caindo em frente a parede das fotos... Sem fotos.
Mesmo no chão, ele começou a rir e apontar para mim, mas antes que conseguisse falar algo tapei sua boca. Pude ouvir bem dificilmente, mas já sabia exatamente o que ele queria falar: "Tá apaixonada." Revirei os olhos.
- Não... E para com isso!
- "Ra brom". - Tirei minha mão e ele repetiu "ta bom" entendível dessa vez.
- Então... - Disse Julieta, quase aos sussurros. Percebemos que os dois nos olhavam abismados. - Acho que eu vou embora. - Sorriu.
- Não! - Gritei e me levantei num pulo. - Quer dizer, não precisa! - Joe se levantou e foi caminhando até a porta. - Joe, faz um favor pra mim?
- Não, não, não. Não. - Foi saindo e fui atrás dele. Quando estávamos no corredor puxei-o.
- Por favor?
- Não sei o que é, mas sei que não é legal.
- Fica com o Cody pra mim um pouco?
- O que? - Berrou. - Não falo com crianças... É um povo que não gosta de mim. E também não gosto deles.
- Preciso conversar com a Ju.
- Agora ela é só "Ju"?
- É sério. Por favor? Leva ele pro estúdio com você, compra um brinquedinho no caminho.
- Angélica! Você tá ficando louca? Eu preciso trabalhar.
- Eu sei, mas eu vou pedir pra ele ficar lá dentro. Te dou dinheiro pra quando ele ficar com fome e você dá um brinquedo pra ele. Não vai atrapalhar.
- Ele é uma criança, um humano. Não um cachorrinho. - Falou sério. Senti um peso na consciência de repente. Não sabia o motivo, ou o que de tão absurdo eu havia falado para que ele me olhasse daquele jeito. Mas aquele olhar era raro. Senti meu rosto queimar.
- Eu sei, desculpa. Mas... Eu preciso de ajuda. - Senti que ia chorar, pois não sabia mais o que fazer.
- Tá, para, para. Não faz essa carinha não, tá? Eu levo ele, e vejo o que eu faço.
- Obrigada! - Pulei no pescoço dele e apertei-o.
Virei-me para voltar para o apartamento e Julieta estava parada, sem reação, olhando para mim. Segurava sua bolsa e a sacola com roupas.
- Eu tava indo... - Explicou-se.
- Não... Precisamos conversar, né?
- Precisamos? - Estranhou. Senti meu rosto corar.
- Espera só um pouco. - Entrei e falei para Cody que ele ia sair com um cara que era um amigão meu, que ele ia comprar um brinquedo pra ele e levar ele pra comer. Disse para ficar quietinho quando estivesse na loja. Ele se animou com as palavras ''brinquedo'' e ''comer'' e saiu correndo.
- Cody. - Chamou Julieta. Estranhei... Muito. Ela abriu a bolsa e revirou algumas poucas coisas, tirou de lá um gameboy e entregou a ele. Ele saiu pulando e Joe foi atrás com um olhar mortífero para mim.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Web novela 2. Capítulo 30.


30º capítulo
"A palavra = Amiga."

J.
Enquanto tomava banho no banheiro de Angélica, fiquei refletindo. Havia acontecido muitas coisas em uma noite, ou madrugada. Ou manhã, conclui olhando pelo pequeno vitrô. Queria saber quem era aquele cara... Ai meu Deus! Será que era namorado dela? Não, não podia ser. Além do mais, ela tinha fotos com uma mulher na parede, e elas não pareciam nem um pouco amiguinhas de infância. Pff! Onde foi que eu me meti? Tentei me entender por um minuto, não sabia o motivo de ter vindo para o apartamento dela, mas ela foi tão... Tudo. Afinal, me recebeu em plena madrugada, aos trapos, lembrei-me. Passou um calafrio pelo meu corpo ao relembrar a noite que havia passado. Balancei a cabeça involuntariamente, tentando esquecer disso por um tempo.
Voltei a pensar em Angélica, e nos tópicos. Eu gostava de fazer tópicos para tudo, era mais fácil de entender as coisas, me ajudam a pensar. Mas para o que será, exatamente que eu estava fazendo tópicos? "Angélica e as coisas boas que ela havia feito para mim desde que nos conhecemos". Hum. "Lado bom e lado ruim de Angélica". Qual seria o lado ruim? Pff! Já sei! "Razões para me tornar amiga de Angélica". Instantâneamente a palavra "amiga" fez-me fechar a cara. Repeti mentalmente a palavra para tentar me acostumar com ela. Não gostava dela, quando se tratava de Angélica, e isso começava a me preocupar. Eu não queria ser só "a palavra" para ela, queria ser... Um pouquinho mais. Bati na testa duas vezes e achei-me idiota. Eu não gosto de mulheres. Quer dizer, não nesse sentido, ou pelo menos nunca havia gostado antes. E também, não ia ser agora que ia começar a gostar da Dona Flor e seus dois maridos. Ou seu marido e sua mulher. Ri baixo de minhas idiotices.
Voltando aos tópicos, e ao título deles, percebi que estava enrolando meus próprios pensamentos, pois já sabia a razão de meus tópicos dessa vez: " Motivos que tenho para querer ser mais que "a palavra" para Angélica." Bufei e acabei rindo da minha própria cara. "A palavra" não, idiota. "Amiga".
- Amiga...? - Sussurrei para o nada. Estremeci e desliguei o chuveiro.

Enrolei-me na toalha rosa e fiquei tentando imaginar Angélica comprando uma toalha daquela cor. Nem deveria ter sido ela que comprou, pff. Sequei-me, tremendo de frio e acabei me enrolando de novo. Fiquei enrolando alguns minutos para abrir a porta e verificar se a roupa estava ali mesmo, acho que fiquei com um pouco de vergonha.
Destranquei a porta silenciosamente e abri um pouco, tentando espiar. Localizei roupas dobradas no chão e puxei rapidamente. Fechei a porta e tranquei, sentindo-me idiota, e um pouco ninja, confesso. Era uma camiseta branca, sem estampas e uma calça jeans normal. Vesti-me e fiquei um tempo olhando para o espelho. As roupas eram larguinhas, que era mais ou menos o estilo de Ange.
Sequei um pouco o cabelo, estendi a toalha e saí do banheiro. Não havia ninguém no apartamento, além do garoto, que no momento estava se empaturrando de donuts. Não pude deixar de rir quando notei cobertura rosa em seu nariz. O garoto olhou-me, surpreso, pois não havia notado a minha presença.
- Oi. - Acenei sorrindo.
- Oi. - Ou algo parecido, que não entendi direito porque estava com a boca cheia. Estava descalça, então fui saltitando com frio até onde o menino estava sentado.
- Posso ficar aqui com você? - Fez que sim com a cabeça, então sentei-me. Estendeu a caixa, oferecendo-me o doce. - Não quero, obrigada. - Deu de ombros. - Isso é o seu café da manhã? - Confirmou com a cabeça. - E a sua janta ontem foi batata frita? - Engoliu, lambendo os lábios.
- É, mais ou menos. Acho que sim. - Balancei a cabeça negativamente e fiquei imaginando os problemas de saúde que esse garoto teria.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Web novela 2. Capítulo 29. PT2.



Quando Julieta soltou meu corpo e se afastou, pude ver sua maquiagem manchada por lágrimas. Ainda não sabia o que dizer, nem o que havia acontecido. Por sinal, não sabia nem se eu deveria perguntar alguma coisa. Abri a boca e tentei pensar em algo para dizer antes que ela me visse fazendo isso.
- Olha... - Ela colocou sua mão no meu rosto, estava fria. Parei de falar.
- Sei que não deveria estar aqui, afinal não nos conhecemos direito, - tentou sorrir - mas posso te pedir uma coisa? - Assenti. - Posso tomar banho?
- Ah. - Ri baixo.
- Desculpa, eu vou pra casa... - Olhou para a porta e começou a caminhar em direção a saída. Puxei-a pelo braço e acabei lembrando-me de quando nos conhecemos.
- É claro que pode. - Sorri e fui procurar a caixa de toalhas.
- Olha, eu não sei o que eu estava pensando quando vim aqui te procurar, ainda mais de madrugada. Aliás, vai amanhecer. - Tagarelava sem parar. - Acho que na verdade, eu não estava pensando. Mas o que importa é agora eu estou, então esquece o banho, de verdade. - Olhei-a segurando duas toalhas, uma rosa e uma verde.
- Pega uma que eu vou te mostrar onde ficam as coisas no banheiro. - Esperei ela pegar a rosa, obviamente, e acompanhei-a até o banheiro.
- Ange, eu vou pra casa. - Disse-me tentando passar por mim para sair do banheiro. Bloqueei o caminho e olhei fixamente para seus olhos, até que olhasse para mim.
- Deixa alguém cuidar de você alguma vez na vida. - Abriu a boca para falar algo. - Deixa eu cuidar de você. - Arqueei a sobrancelha.
Como ficou sem graça, sussurrou algo que pareceu um '' tá bom'' e virou para o chuveiro. Apontei o lugar onde as coisas ficavam e saí do banheiro, fechando a porta. Um alívio tomou minha mente, pois não sabia de onde havia tirado coragem para falar aquilo. Olhei para Cody, ainda de longe, praticamente roncava de tão alto que respirava. Ouvi o chuveiro sendo ligado e encostei-me de costas para a porta. Precisava pegar roupas limpas para ela. Será que ela pretendia dormir aqui? Será que pretendia dormir? Bom, se ela fosse ficar é claro que tenho o colchonete do Joe enrolado em algum canto, mas suponho que ela não vá querer dormir ali.
Ouvi a porta rangendo um pouco, virei-me e vi Joe entrando com uma caixa de Donuts. Olhei novamente para a sacada, estava tão tarde assim? Quer dizer, cedo.
- Olha o que eu trouxe pra você, sumida! - Parou em frente a Cody, olhou para mim abismado. - Quem é esse? - Pensei em mil coisas para responder, mas Julieta foi mais rápida ao abrir a porta. Caí no chão e ela gritou de susto. Por sorte, ainda estava vestida, acho que estava esperando o meu chuveiro super lento começar a esquentar.
Cody acordou com o grito e ficou nos olhando assustado.
- O que é que está acontecendo? - Gritou Joe. Julieta voltou para o banheiro e desligou o chuveiro.
- Eu só ia pedir uma sacola, mas acho melhor eu ir embora. - Sussurrou para mim. Empurrei-a com calma para dentro do banheiro de novo.
- Aqui, - puxei uma sacolinha de uma das gavetinhas do balcão da pia - se precisar de mais pode pegar. Vou pegar roupas limpas pra você, quando sair do banho vão estar aqui na porta. - Sorri.
Saí do banheiro sentindo o olhar de Joe me fuzilar. Caminhei até minha caixa de roupas limpas, peguei uma roupa simples e coloquei em frente a porta do banheiro. Peguei a caixa de Donuts que estava sobre o balcão e entreguei a Cody.
- Aproveita que tá aqui e come um pouco de porcaria vai. - Pulou na caixa e começou a adivinhar os sabores.
Fui puxada para fora do apartamento e fechei a porta, calmamente.
- Que porra toda é essa? - Cocei a cabeça. - Não adianta coçar a cabeça e o pescoço, entortar a boca ou morder os lábios. E nem pense em gaguejar. - Arqueou a sobrancelha.
- Lembra que o Caleb ligou? - Sussurrei.
- Ah! - Berrou, - ele também tá ai dentro?
- Não! Não é isso. - Mordi o lábio inferior.
- Então explica, porque a última vez que te vi você morava sozinha. E agora, constituiu uma família com a Mortícia Adams? - Apoiou o braço no batente. Demorei a entender que ele estava falando da Julieta, pois ela estava com as roupas rasgadas e maquiagem borrada e coisas afins. Mas, a Mortícia Adams só anda de preto. Diria que estava parecendo A Noiva Cadáver, de Tim Burton. Ou quase isso.

- Angélica!
- Que? - Percebi que havia deixado Joe sem resposta. - Tá, tudo bem! Mas senta, que lá vem história. E muita história. - Revirou os olhos e me ouvia enquanto brincava com seu piercing na boca.



quarta-feira, 18 de maio de 2011

Web novela 2. Capítulo 29.

























29º capítulo
‘‘ Beautiful girl, stay with me. ’’ INXS .

A.
Ia amanhecer em pouco tempo e eu não havia pensado em soluções para nenhum dos meus problemas. Aliás, apesar do Caleb ser um imenso problema no momento, eu não conseguia parar de pensar na Julieta. E isso me deixava mais irritada e magoada de certa forma. Não sei porque, me senti traída, sendo que não tenho nada com ela. Nem vou ter, ainda mais agora. Pff, como eu estava confusa. Assustei-me com batidas na porta. Quem seria a essa hora? Caleb, como sempre, passou pela minha cabeça. Fui rapidamente abrir antes que Cody acordasse.
- O que... - Foi a única coisa que consegui pronunciar ao ver Julieta com roupas rasgadas e sujas, e acho que com sangue. Ela estava destruída. Olhava-me com uma expressão indecifrável, ou apenas não estava pensando em nada. Peguei sua bolsa e coloquei no chão ao lado da porta, peguei sua mão e puxei-a para dentro, com certa distância. Andou calmamente e parou no meio do meu apartamento, não disse nada, continuei olhando para seus olhos e percebi que ainda segurava sua mão. Tive medo de soltar, mas tive mais ainda de continuar segurando, então fui soltando aos poucos e acho que ela acabou nem percebendo. Aquele era um momento em que eu entendi o que realmente significava ''não saber o que dizer''. Pensei em dizer para ela se sentar, mas eu não tinha uma cadeira. Também passou pela minha cabeça oferecer uma água, mas acho que o que ela precisa é de um banho. Isso, um banho! Como eu sou idiota, eu não diria pra ela "quer tomar um banho", né? Ou diria? Talvez eu devesse perguntar o que aconteceu, quer dizer, se ela quisesse me dizer, afinal ela veio me procurar.
Enquanto meus devaneios ocupavam minha mente, mal pude perceber seus lábios finalmente sussurrando algo para mim:
- Posso te dar um abraço? - Sua voz falhava, como se mais uma palavra fosse necessária para que começasse a chorar.
- Cl... Claro. - Não consegui me mover, ao contrário dela. Veio de encontro a mim, encaixou seu queixo no meu ombro e me apertou com uma força que eu não sabia que ela tinha.

"Running from a bad home. [...] She says stay with me."

- Fica aqui comigo? - Sussurrou. Não entendi bem, mas concordei. Abraçou-me mais forte ainda, mas dessa vez abracei-a de volta e tentei me lembrar de quando fora a última vez que senti o que estava sentindo agora. Imediatamente pensei em Kiko, meu cachorro de infância, que havia morrido após muitos anos doente. Lembrei-me de como eu me sentia quando o via triste e doente e inconscientemente abracei Julieta mais forte. Senti-me uma criança, e ao mesmo tempo mais madura por querer protegê-la. Só não sabia do que.


domingo, 15 de maio de 2011

Web novela 2. Capítulo 28.


28º capítulo
‘’ Mentindo ‘’

J.
Estava cada vez mais perdida, eu era uma idiota. Estava ficando tarde e eu estava ficando cansada de dirigir, tão cansada que vi alguém cair no meu capô e depois no chão e demorei para raciocinar que eu havia atropelado uma pessoa. Parei o carro e pulei para fora indo ver se eu havia matado alguém. Abaixei-me e o homem começou a se levantar como se nada tivesse acontecido. Senti meu cabelo sendo puxado e meu pescoço apertado contra alguém de grande porte. O sujeito que estava caído veio na minha direção e eu não conseguia me mexer, pois alguém estava me segurando.
- O que uma garota tão linda como você está fazendo sozinha aqui? - Aproximou-se e passou os dedos pelo meu pescoço.
- Me solta! - Comecei a me debater inutilmente. - Socorro! - Gritei. Ele colocou a mão sobre a minha boca, nunca senti tanto nojo na minha vida. Quase vomitei.
- Fica quietinha, que eu não corto a sua língua, combinado? - Engoli a seco e parei de me debater, já ofegante. Meu celular começou a tocar.
- Que barulho é esse? - Perguntou o homem que me segurava a força. O outro tirou a mão da minha boca.
- Nada! - Falei alto e voltei a tentar me soltar. Temi que ele quisesse fazer algo contra alguém, pois poucos tinham esse meu número de celular.
- Achei! - Um terceiro homem apareceu com a minha bolsa e meu celular tocando na mão. O que havia tapado minha boca, e parecia ser o que mandava neles, pegou e apertou para atender, ao mesmo tempo sussurrando ''Pareça normal, ou eu mato quem quer que seja."
- Alô? - Atendi tentando fazer minha voz parecer normal, segurando o choro.
- É o maridão rico? - Sussurrou um deles ao meu lado.
- Ju... É a...
- Angélica! - Gritei, pois algo me confortou por algum momento. Completamente sem pensar, fiquei feliz por segundos. - Oi.
- Oi... Você tá bem? - Encarei os olhares de vários marmanjos me fitando. Não consegui falar nada. - Quer dizer, saiu daqui meio abalada.
- Fala, garota. - Sussurrou e me beliscou o que segurava minha bolsa.
- Ah, eu to legal sim. - Respirava com dificuldade, com o cara enorme que segurava meu pescoço.
- Olha, você ta chateada? Porque se estiver, me desculpa. - O sujeito que segurava o celular colou-o na minha boca, talvez para me irritar, não sei.
- Angélica, eu to ocupada. - Tentei ser indiferente, mas minha respiração acelerava cada vez mais.
- O que foi? O que tá acontecendo? - Senti vontade de me enterrar no chão.
- É a namoradinha é? - Riu baixo um dos idiotas.
- Nada... - Consegui falar por pouco, e o homem pressionava meu pescoço cada vez mais. Que ódio. - Vou desligar. - Suspirei.
- Não... - Angélica falou alto. O homem que eu achava ser o ''líder'' deles começou a me chamar por nomes desagradáveis em voz alta. - Quem tá aí? - Perguntou ela, respirei fundo e tentei pensar no que responder. Não deu tempo, o chefe dos nojentos pegou o celular e respondeu por mim.
- Estamos ocupados. - Sorriu para mim e piscou. Grunhi. - Tchau. - Desligou, entregando o celular para o capanga que segurava minha bolsa. - O que foi? Não gostou não? - Se aproximou de mim e colou os lábios no meu rosto. Senti lágrimas escorrendo pela minha face.
- Me deixa ir embora. - Sussurrei. Continuava imóvel, e nem tentava mais sair do lugar.
- Eu decido quando você vai embora. - Aproximou sua boca dos meus lábios, quase tocando-os.
- Por favor, pode pegar tudo o que quiser, só me deixa ir. Não vou dar queixa, eu juro. - Supliquei, meu choro se intensificou na medida em que as palavras saíram pela minha boca.
- Vou fazer uma pergunta, e eu quero que a moça seja bem sincera, tudo bem? - Fiz que sim, ainda quase imóvel. - Você tem muita grana no banco? - Fiz que sim novamente, dessa vez demorando um pouco mais para responder. - Vamos fazer um trato então. Nós vamos ao banco, você me fala sua senha, eu retiro o dinheiro enquanto você espera no carro, e se tudo der certo eu deixo você ir embora.
- Porque eu devo acreditar em você? - Arrisquei. Ele sorriu e acenou para o homem atrás de mim, que me soltou. Respirei fundo e passei as mãos pelo meu pescoço, que estava dolorido.
- Porque estou te dando a minha palavra. - Pegou na minha mão. Quis soltar, mas senti medo. - E eu nunca quebro promessas. - Disse seriamente, olhando fixo para mim.
- Jura que não vão fazer nada comigo, que vão devolver meus pertences pessoais e me deixar ir embora em paz? - Meu coração estava acelerado, mas tentei manter a coragem.
- Prometo que se eu conseguir meu dinheiro, farei tudo isso. - Respirei fundo.
- Ta bom. - Ele voltou a sorrir e me puxou delicadamente para perto do meu carro. Abriu a porta traseira e me apontou para que entrasse, fez o mesmo com um dos outros caras. Escorreguei para o outro lado, mas logo a porta se abriu e um gordo entrou, fechando-me no meio. As portas da frente se abriram rapidamente e os outros dois entraram, com o ''chefe'' dirigindo. Senti-me como em um filme de ação.
- Caso não tenha percebido, o carro agora é meu, tá. - Grunhi. Como se eu realmente estivesse me importando com o carro.
Dei as direções á ele, e no caminho fiquei prestando atenção no grupo. O que estava á minha esquerda era alto, forte e tinha a barba mal feita. Olhava-me pelo canto dos olhos algumas vezes, o que me incomodava. Não havia o visto até que entrasse no carro. Á minha direita, o gordo. Parecia ser o mais nojento e idiota de todos, e pelo que pude enxergar, é o que pegou minha bolsa. Olhei para o seu colo, com alguns dos meus pertences. Celulares, vários eletrônicos inúteis, uma câmera e um par de brincos.
- Onde está a minha bolsa? - Sussurrei para ele. Esforçou-se para puxá-la para fora do espaço entre ele e a porta do carro. Hesitou ao me dar, mas como havia tirado quase tudo, me entregou. Puxei um batom meu, observei-o e percebi que era mais caro que os aparelhos que ele segurava. Ri baixo, guardando-o e voltei a observar os outros dois homens da frente. O que dirigia era o sacana mandão, e o que estava ao seu lado era imenso e forte, tinha certeza que era quem estava me segurando.
Chegamos ao banco 24 horas e o chefe, Renan, que era como todos o chamavam, pegou meu cartão e anotou minha senha. Desceram os dois da frente dando algumas ordens e o gordo tomou a direção. Foi para uma parte escura da rua que virava em um beco, estacionou ali.
- Ei, idiota. Renan mandou uma mensagem mandando tu comprar quatro lanches. - Murmurou quase sem vontade de falar, enquanto guardava o celular.
- Por que sempre eu? - Resmungou, descendo do carro. - Vai fazer isso, vai fazer aquilo... Eu como quatro lanches sozinho! - Grunhiu e saiu, virando a esquina. Observei-o sem muita atenção, suspirei e virei lentamente o rosto. O grandão que restava no carro sorriu, demonstrando a falta de alguns dentes.
- Meu nome é Jonas. - Arqueou uma sobrancelha. Dei de ombros e ele se aproximou. - O que foi? Tá com medo de mim? - Inclinou o corpo por cima do meu, tentei me afastar e ele segurou meus braços.
- Me solta agora! - Gritei. Ele abriu a porta rindo, ainda me segurando e me puxou quase sem esforço nenhum para fora, fazendo minha bolsa voar longe.
- Como a princesa chama? - Sussurrou no meu ouvido, senti um cheiro abominável de seu corpo perto de mim. Não respondi e ele continuou me puxando, entrando cada vez mais no beco. Tentei me soltar mas não consegui. - Não vai falar comigo? - Disse aos risos.
- Eu tenho nojo de você. - Berrei e me soltei de suas mãos por poucos segundos.
- Olha aqui garota! - Segurou-me a força e me empurrou na parede. - Não fala assim comigo. - Aproximou seu rosto, virei-me e ele colou os lábios no meu pescoço. Afastei-me, o que fez com que ele, irritado, me jogasse entre as caixas e latões de lixo que haviam ali. Não consegui me levantar a tempo e ele jogou o peso do seu corpo por cima do meu. Tentei gritar e ele beijou-me a força, quase vomitei novamente quando virei o rosto.
- Me deixa ir embora. - Minha voz mudava conforme eu começava a chorar.
- Acho que não. - Riu novamente. Puxou minha camisa até que se rasgasse.
- Para! - Solucei. O sujeito me ignorou e se abaixou na altura de minhas coxas. Solucei novamente, não conseguia mais falar. Senti suas mãos tentando tirar minha calça, pensei em segurar com alguma força que tinha contra ele, mas quando olhei para frente vi uma sombra se aproximando. Será que eu havia ficado louca?
As lágrimas estavam embaçando os meus olhos, mas ainda assim consegui ver dois homens grandes chegando. Ouvi o som de um tiro, vi e senti vagamente sangue e outras coisas nojentas esparramando-se sobre mim. O resto da cabeça do homem caiu sobre o meu colo e não pude conter um grito que ardeu minha garganta.
- Headshot! - Ouvi um deles comentando.
Não conseguia acreditar em tudo o que estava acontecendo. Renan e o capanga maior se aproximaram e ficaram dizendo que ninguém traía a confiança deles sem ser punido. Levantaram-me e disseram que me deixariam ir embora só porque o assassinato de alguém como eu daria muito o que falar, mas completaram: se fizesse alguma denúncia, voltariam para me matar. Engoli a seco, concordei com tudo, peguei minha bolsa no chão e saí andando.
No momento o que eu conseguia pensar era que eu estava viva, um homem tentou me estuprar, e o mesmo morreu sobre mim. Por sorte, alguma se possível, eu não estava mais perdida.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Web novela 2. Capítulo 27.


27º capítulo
‘‘Trust in me, baby. Give me time.’’Janis Joplin .

A.
Tinha o péssimo hábito de não dormir direito, então sempre levantava em horas aleatórias e dormia quando conseguia, ou dava tempo. Essa noite não foi diferente, então acordei e desisti de tentar dormir novamente. Levantei-me delicadamente para não acordar o garoto, procurei pelo meu relógio e avistei 23h. Fui para a sacada, apoiei-me meio jogada e deitei a cabeça nos braços. O som da rua era alto, pelo menos para quem prestava atenção. Carros passavam com alta velocidade e alguns com o farol apagado. Acho que tinham pessoas tentando morrer hoje. Dei de ombros e caminhei para dentro novamente, indo na direção do meu violão. Estava prestes a pegá-lo quando lembrei-me que não estava sozinha. Droga.
Caleb não tinha dado sinal de vida ainda, e será que daria? Não tinha parado para pensar ainda que eu estava com uma criança na minha casa, e que podia demorar para minha vida voltar ao normal. Quando ele fosse embora. Mas, e se ele não fosse? Comecei a imaginar que eu não saberia o que fazer se ninguém de confiança viesse buscar o garoto. Talvez eu devesse ter entregue Cody para a mulher que bateu na porta mais cedo. Apesar de ela parecer antipática, talvez fosse quem cuidava do menino. Quem seria ela? Deveria perguntar a ele amanhã. Deveria fazer compras amanhã, isso sim.
Percebi que estava andando de um lado para o outro no apartamento. Sentei-me no chão e olhei para o telefone. Era muito tarde para ligar para ela? Não me importava. Puxei-o pelo fio, que estava quase se rompendo de tanto eu fazer isso, e disquei o número que havia fixado na minha camiseta, e na minha memória.
- Alô? - Atendeu depois de muito tempo com uma voz baixa, deveria estar dormindo. Fiz uma careta manhosa ao perceber isso.
- Ju... É a...
- Angélica! Oi! - Praticamente gritou.
- Oi... Você tá bem? - Ela não respondeu, ouvi sua respiração se afastando e aproximando novamente. - Quer dizer, saiu daqui meio abalada.
- Ah, eu to legal sim. - Respondeu seca.
- Olha, você ta chateada? Porque se estiver, me desculpa.
- Angélica, eu to ocupada. - Disse, mais seca. Ouvi sua respiração ofegante, finalmente próxima ao telefone.
- O que foi? O que tá acontecendo? - Preocupei-me.
- Nada... - Parou de falar e respirou. - Vou desligar.
- Não... - Ouvi uma voz grossa dizendo algumas coisas obcenas. - Quem tá aí? - Perguntei por impulso, apesar de já ter percebido o que estava acontecendo.
- Estamos ocupados. - Um homem pegou o telefone. - Tchau. - Desligou.
- Tchau... - Suspirei incrédula. Não acredito que ela estava fodendo com alguém enquanto eu ficava aqui pensando nela. Pff. Senti ódio de mim por sentir ódio daquele cara. Quem eu achava que era para começar a ter sentimentos por essa garota agora?
Não tive tempo de refletir sobre isso pois o telefone tocou. Atendi rapidamente sem dizer nada, fitei o menino que se mexeu um pouco mas logo voltou a dormir tranquilamente.
- ...Angélica? Tá ai? - Percebi a voz de Caleb saindo baixa do telefone.
- Inútil! - Falei um pouco alto, fazendo o garoto rolar na cama mais um pouco, sem acordar. - Onde você está?
- Escuta bem, eu sou seu amigo. Sei que estou dando uma baita de uma mancada agora, mas preciso de você.
- Você não vai deixar ele aqui. Não sou sua babá. - Irritei-me.
- Se um homem baixo chamado Dalmo, ou uma mulher gorda e mais velha chamada Vanda aparecer, não deixe que levem meu filho.
- Quem é essa mulher? Ela é horrível.
- Cadê o Cody? - Desesperou-se.
- Do meu lado, dormindo. - Revirei os olhos.
- Ah. - Suspirou aliviado. - Não confie nela.
- Quem...
- Ele está com um dente mole, tem alergia a picada de abelha e coisas com muito tempero.
- Quantos anos ele tem afinal?
- Nove.
- Quase... - Disse retóricamente. Estava calma com essa conversa, pois pelo menos ele estava me explicando alguma coisa. - E aí, quando volta?
- Preciso de mais tempo. Você tem que confiar em mim.
- Tá mais fácil confiar no Darth Vader.
- Angélica, você é a melhor amiga do mundo. Desculpa, e obrigado por...
- Ah não! Você não vai desli...
- Diz que eu o amo. - Desligou. Soquei o ar de raiva. De novo não!

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Web novela 2. Capítulo 26.


26º capítulo
‘’Game Boy ‘’

J.
Acabei pegando o trânsito do século tentando voltar para casa. Tinha como eu entrar em algumas ruas estreitas, mas não fazia idéia de para onde elas iriam me levar. Resolvi arriscar. Virei o carro no meio de vários outros, o que causou um tumulto entre os motoristas, o que não me importou muito, é claro. Tentei dirigir lentamente no pouco espaço que tinha, mas não consegui, pois estava anciosa para sair dali. Uma rua me levava a outra e eu me sentia cada vez mais perdida. A única sinalização que podia se ver eram os cartazes de algum evento, mas nada de como sair dali. Perdi a paciência e parei o carro no meio da rua, desci e caminhei impacientemente até um senhor que passava pela rua. Pensei em lhe perguntar algo, mas avistei uma mercearia, ou algo assim. Acelerei os passos e entrei procurando por alguém que pudesse me atender. Não vi ninguém de nenhum dos lados do balcão, não vi ninguém em lugar nenhum. Olhei pra rua e o velhinho já havia ido embora. Pff! Como poderia existir um lugar tão vazio? Resolvi dar uma olhada nas prateleiras enquanto esperava alguém aparecer. Coisas que eu não via desde que era criança ocupavam as cestas á venda. Observei alguns doces e salgadinhos, até que algo chamou a minha atenção. Aqueles joguinhos pequenos... Como chamavam mesmo? Game Boy! Acho que era isso. Peguei um na mão e comecei a apertar os botões até a tela começar a piscar. Tinham opções de jogos diferentes, isso me deu certo ânimo. Cliquei em um e um aviãozinho apareceu. Quer dizer, pequenos quadradinhos escuros que formavam o desenho de um avião. Apertei um dos botões e começaram a sair bolinhas dele. Tentei entender o propósito do jogo, mas quando estava chegando á alguma conclusão meu coração dispara de susto. Uma mulher baixa inclinava-se nas pontas dos pés para alcançar meu ombro. Virei-me rapidamente e ela sorriu.
- Posso ajudar a moça? - Seu jeito de falar era diferente, meigo. Não chegava a ser um caipira. Ela sorria e secava uma de suas mãos no avental florido. - A senhora me desculpa, que eu tava lavando a louça e nem ouvi ninguém entra. Só percebi por causa dos pi pi pi que esse negócio ai faz! - Apontou para o aparelho na minha mão. Agora pude perceber melhor seu sotaque, seu jeito. Era sim um pouco caipira.
- Ah... Magine! Eu tava olhando o joguinho. - A mulher me olhou de uma forma estranha. Senti meu rosto corar. - Não pra mim, pro meu filho, lógico!
- Ah, ta bom. - Olhou-me de cima a baixo, falando com descrença. Aquilo me irritou um pouco.
- Vou levar um desse, então. - Andei lentamento atrás dela, e esperei apoiada ao balcão. Peguei algumas balas no caminho e coloquei junto ao jogo.
- É só isso? - Sorriu. Fiz que sim e paguei. Perguntei a ela como poderia voltar para o centro e ela passou alguns minutos me explicando. Despedi-me e agradeci, mas quando estava quase saindo vi um cartaz, exatamente igual aos milhares que estavam espalhados pelas ruas. Anunciavam um evento com bandas se apresentando em uma pizzaria. Reconheci facilmente o rapaz que havia conhecido na praça, em uma das fotos. Seu rosto estava ligado ao nome de alguma das bandas, não sabia qual delas. Li o endereço, já conhecido e anotei data e hora no meu celular. Olhei para a rua, não havia passado nenhum carro por aqui, pois senão estaria atrás do meu esperando. Entrei no carro e abandonei o local deserto.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Brasil, acorda!


Rebaixada, impotente, irrelevante. É assim que eu me sinto cada vez que ligo a televisão ou leio o jornal.

Hoje a história não foi diferente: os vereadores e prefeito de Sorocaba receberam aumento no salário. Isso foi decidido por ninguém menos que eles. Temos políticos decidindo o salário de políticos e somos nós quem pagamos essa grana toda. Por que o povo não tem direito de voto quando se trata do dinheiro que sai do nosso bolso e vai para o bolso deles? Porque tenho certeza que nenhum deles vai pagar saúde, educação ou bem-estar público com o dinheiro endereçado a eles.
Já não basta todo o dinheiro que roubam do que era para ser gasto com a população, agora passam a ganhar em um mês mais do que muitos não ganham nem em um ano? A situação chega a ser inacreditável.
Válido discutir o merecimento dos políticos sobre este dinheiro. Por exemplo, o fato de algumas pessoas terem reclamado de ter esperado mais de cinco horas para poderem fazer um boletim de ocorrência na delegacia. E por que? Não tinha quem atender os cidadãos que acabavam de ser assaltados.
Acham isso justo? Acham que essas pessoas representantes do povo, que deveriam assegurar os direitos e boa qualidade de vida da população, merecem realmente ganhar mais do que ja ganhavam? Merecem o cargo em que estão? Afinal, se dá para viver nas condições em que temos hoje, desafio aos proprietários de tais cargos á viver com salários mínimos, frequentar postos de saúde e hospitais lotados de pessoas que não conseguem ser atendidas. Colocar seus filhos e netos em escolas públicas, onde muitas vezes as aulas não são dadas por falta de profissionais na área, nada surpreendende considerando o salário de um professor atualmente. Á pegar um ônibus ou um metrô em segurança e boas condições de transporte e na estrada. Sem obviamente fazer isso uma vez por ano, perto das eleições.

Brasil, o que há de errado? Onde estão os brasileiros que pintavam as caras, faziam protestos, gritavam até serem ouvidos, faziam arte e música para expressar a revolta contra o que era errado. Para demonstrar que somos o povo, somos mesmo. Quem deveria ter maiores direitos e melhores condições. Tantos lutaram, foram exilados e mortos, para hoje ficarmos sentados esperando alguma coisa mudar? Brasil, acorda. Quem tem o poder da maioria aqui somos nós, só nos acostumamos a não usar esse poder. De sair nas ruas e parar o trânsito para provarmos que podemos sim, fazer alguma coisa.
Brasil, acorda! Antes que seja tarde demais.

sábado, 16 de abril de 2011

Web novela 2. Capítulo 25.


25º capítulo
‘‘ I know that's hard to be stuck with people that you love when nobody trust. ’’ – Avril Lavigne.

A.
Ela foi embora e eu fiquei olhando aquelas fotos e desenhos. Não os via mais como tristeza, via como razão de Julieta ter ido embora. Andei silenciosamente em volta de Cody e tirei tudo o que havia colado na parede, folha por folha, fotografia por fotografia. Juntei tudo sem me importar, puxei uma das caixas de papelão do banheiro e coloquei dentro. Aquilo parecia um santuário para alguém que morreu. E ela não tinha morrido, tinha me deixado porque quis me deixar. Agora que eu estava precisando de ajuda para lidar com uma criança, um amigo sumido... Onde ela estava? Sempre estive a ouvindo, nunca reclamei. Mas percebi que nenhuma vez eu pude desabafar, e agora que preciso dela... Ela estava em outro lugar, com outra pessoa, aposto. Horas se passaram e eu estava cansada, estressada. Fui jogar o resto do café frio na pia quando ouvi a campainha. Senti meus batimentos na garganta. Era Julieta. Corri para a porta abrindo-a com um sorriso estampado.
- Oi. - Uma mulher gorda com cabelos louros tingidos presos num coque, usando um vestido justo florido, sorria para mim.
- Oi. Quem é você? - Parei de sorrir.
- Sou Vanda. Estou procurando por um garoto chamado Cody. - Engoli a seco. Não respondi. - Ele está com você?
- Não conheço nenhum garoto com esse nome. Na verdade, acho que não conheço nenhuma criança. - Sorri.
- Imagino. - Indagou, encarando minhas tatuagens. - Boa noite. - Virou-se e foi embora. Entrei bufando e sentei-me ao lado do menino, que ainda dormia. Olhei para o relógio, eram quase sete horas. Deitei-me ao lado dele, virei para o outro lado e tentei dormir.

Web novela 2. Capítulo 24.


24º capítulo
‘’Café. ‘’

J.
Ou por você? Por você! No que eu estava pensando? Ela deveria achar que eu sou uma bela idiota. Estávamos falando sobre café, simples. Era algo que eu poderia responder facilmente. Bufei, olhando para os carros que passavam lá em baixo. Alguns minutos depois, observei um pequeno acidente entre dois carros. Uma pequena batida, que fez os motoristas descerem do carro para discutir. Lembrei-me de como estava nervosa quando conheci Angélica.
- Prontinho. - O cheiro de café estava maravilhoso. Ange segurava uma xícara próxima ao meu rosto. Peguei-a delicadamente e voltei a me apoiar na grade da sacada. Ela fez o mesmo, com uma xícara três vezes maior que a minha.
- Nossa... Você gosta tanto assim de café? - Espantei-me.
- Ah... Um pouco. - Sorriu de canto e olhou para baixo, onde encontrava-se o acidente que havia chamado minha atenção. - Nossa, que batida feia.
- Você acha? - Dei de ombros. - Já bati tanto o carro.
- E você acha isso normal? - Arregalou os olhos.
- Na maioria das vezes sim.
- E quando não é? - Tomou um gole do café e eu fiz o mesmo, pausando a conversa.
- Bom, uma vez meu carro capotou, tenho cicatrizes até hoje. - Retomei, e aproximei meu rosto dela. - Aqui na minha sobrancelha.
- Acho que preciso de uma lupa. - Brincou.
- Tem outras, tá! - Bufei.
- Mas essa está realmente grande. - Ironizou. Aproximou o rosto e nossos olhares se cruzaram por alguns instantes. Corei e olhei para a rua novamente.
- E aí, quando chega sua mudança? - Mudei de assunto.
- Não chega, na verdade. - Tornei o olhar para ela. - Quando comprei e mudei para o apartamento, só compramos o necessário. E desde então não comprei mais nada.
- Compramos? - Perguntei sem vontade nenhuma de saber a respota.
- Eu e uma pessoa. Alguém que foi embora, enfim.
- Hum. - Apertei os lábios e meu coração acelerou. - Cadê o Cody? - Mudei de assunto novamente.
- Dormindo eu acho. Ou ele finge muito bem. - Olhei para o colchão pouco atrás de onde estávamos. Enxerguei uma parede com fotos e desenhos. Eram fotos com Angélica e uma mulher de cabelos castanhos na altura do ombro. Senti um incômodo imenso.
Caminhei até chegar ao balcão e coloquei a xícara com o resto do café em cima. Angélica seguiu-me e fez o mesmo.
- Você tá bem?
- Sim. - Sorri. - Mas to indo embora, preciso ir, quer dizer.
- Por que? - Mordeu o lábio inferior espontaneamente.
- Não sei, só preciso. Me desculpa? - Encarei o chão.
- Pelo que? - Aproximou-se, tirou minha bolsa do meu ombro e colocou no balcão. Segurou minhas mãos e olhou fixamente para mim. - Ei, o que foi?
- Nada. - Levantei o olhar e senti minha respiração parando aos poucos. - É só que... Você faz isso, sabe? - Olhei para suas mãos.
- O que? - Soltou minhas mãos e arregalou os olhos. - Só tava tentando ser legal.
- Não! Eu sei. - Balancei a cabeça negativamente. - Só preciso ir, ta?
- Tudo bem. - Deu de ombros. Peguei minha bolsa e beijei seu rosto, saindo em seguida.
Desci as escadas rapidamente e dirigi para casa, tentando me entender.

Web novela 2. Capítulo 23.



23º capítulo
‘‘ Eu gosto demais de tudo que você faz ’’ – Peninha.

A.
- Amei! - Exaltou-se Julieta, ao me responder. Afastei-me espontaneamente e observei-a pegar as batatas com a mão. - Isso é a melhor coisa do mundo. Como eu fiquei tanto tempo sem comer?
- Não sei... - Disse rindo. Ela parecia uma criança experimentando algo pela primeira vez. Não conseguia parar de olhar. - Então... Você me ligou.
- É... - Parou de comer e sorriu.
- Por que? - Parou de sorrir e começou a gaguejar. De novo.
- Ah... Nada. Quer dizer, nada de mais. Não que fosse pra nada. Eu liguei porque eu liguei... Entendeu? - Acabei rindo dela e antes que pudesse responder, Cody bocejou com os olhinhos já se fechando.
- Acho que eu preciso ir.
- Ah... Mas tão cedo? - Olhei no relógio, eram 15h.
- É, mas parece que alguém não anda dormindo direito. - Olhei para o garoto pelo canto do olho.
- Ah... Tudo bem. - Sorriu meio de lado com o olhar cabisbaixo.
- Mas você pode vir com a gente... Se quiser claro. - Sorri, obviamente antes de lembrar que meu apartamento não tinha mobília.
- Magina, eu ainda tenho que passar na minha irmã hoje... - Deu de ombros.
- Nina, não é? - Sorriu forçadamente, o que me assustou, e fez um bico.
- Acho que posso deixar isso para amanhã. Se o convite ainda estiver de pé...
- Lógico. - Concordei com certo descaso, mas não conseguia parar de pensar na cara que ela faria quando chegássemos lá.
- Sigo vocês com o meu carro? - Acabei rindo sem querer.
- Se quiser seguir o ônibus. - A garota apertou os lábios.
- Então vocês vem de carona comigo. - Sorriu. - Pode ser?
- Tá bom. - Aceitei meio preocupada que ela se lembre de quem bateu no carro dela. Pagamos a conta e seguimos para a rua. Julieta caminhou pouco e parou frente à um carro vermelho. - Então não estamos procurando por um Porsche?
- Ah é, eu tenho outro. - Sorriu mostrando-se sem graça. Cody começou a pular.
- Vamos voltar de carrão? - Nós rimos e entramos no carro.
Expliquei onde era meu prédio e chegando lá ela estacionou numa vaga proibida, sem ligar muito pra isso. Acenei para Carlinhos e subimos as escadas. Pensei que fosse ouvir alguma reclamação, mas nenhum dos dois disse nada e chegamos a minha porta em silêncio. Coloquei a chave e abri a porta, Cody correu para o banheiro e ficamos nós duas lá fora, olhando uma para a cara da outra.
-Entra. - Sorri. - Só não liga pra... Falta de bagunça.
- Tá... - Suas sobrancelhas demonstravam que ela não havia entendido o que eu tinha dito. Mas com a parada que deu ao chegar no centro do apartamento, pude perceber que entendeu. - Não sabia que tinha acabado de mudar. - Riu.
- É... - Ri forçadamente, não querendo dizer nada. - Quer café?
- Sim. - Sentou-se no meu balcão. Não conseguiria imaginá-la fazendo isso, se não estivesse vendo. - Só se o seu café for bom.
- Você vai se apaixonar por ele. - Dei risada, completamente orgulhosa e confiante, lógico.
- Ou por você. - Entortou a cabeça e desceu do balcão, indo para a sacada. Continuei imóvel, não sabia nem o que responder, ela me deixava... Idiota. Ouvi a descarga do banheiro e logo depois a porta se abrindo. Cody surgiu como um raio na minha frente.
- Lavou as mãos? - O garoto corou.
- Sim... - Bufei.
- Vai lavar as mãos, porquinho.
- Ta bom. - Fez um bico e foi para o banheiro pisando pesado. Peguei o saco de café e olhei para Julieta, que observava a rua. Ela parecia pensativa.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Web novela 2. Capítulo 22.


22º capítulo
‘’ Não sei ‘’

J.
Tentei pensar por alguns segundos, mas cheguei a conclusão que nem eu sabia o porquê de ter dito aquilo.
- Ah, não sei. – A garota encarou-me e pude sentir seu olhar lendo minha mente. Pisquei algumas vezes e comecei a gaguejar, nada além do normal. – Não que eu não goste de crianças, não é isso. Eu até gosto, quando elas não parecem mais saquinhos de sujeira ou quando não gritam muito. E também quando não falam muito. – Arqueou uma sobrancelha e continuou em silêncio. – Tá, não gosto muito.
- Nunca quis ter filhos. Agora isso... - Suspirou.
- Esse Caleb... É seu namorado? - A garota começou a rir, espantada.
- Absolutamente não.
- Ah. - Não sabia o que falar, não sabia se eu deveria ir embora.
- Ah... Que bom? - Sorriu espontâneamente. Formaram-se covinhas no seu rosto chamando minha atenção. Ela era muito linda. Demorei alguns segundos para entender o que ela quis dizer, acabei corando e ri sem dizer nada. - Bom, já que está aqui, senta com a gente?
- Não, magina. Preciso ir embora.
- Precisa? - Olhou-me de um jeito que me fazia esquecer o que eu ia dizer.
- Ér... Acho que posso ficar um pouquinho.
- Ah... Que bom. - Riu e puxou-me pela mão para a mesa. Sentei ao lado dela e fiquei quieta e encolhida. O menino comia as batatas fritas quase sem mastigar, e com as mãos, muito estranho. Mas resolvi não falar nada. Ange começou a comer também e pediu um refrigerante para a garçonete. Resolveu notar que eu estava imóvel. - Não vai comer não? - Balancei a cabeça negativamente. Ela olhou-me de novo com aquele olhar de ''eu sei o que você está pensando.'' Ela já havia feito isso várias vezes e estava me irritando. - Você não come batata frita né?
- Como sim, as vezes.
- Então come agora. - Sorriu.
- Ah, mas eu não to com fome. - Dei de ombros.
- Você é muito fresca, sabia? - Pegou os copos e começou a encher.
- Não sou fresca. - Peguei um palito do recipiente, pois não haviam talheres na mesa, e espetei uma batata, com certo descaso. Os dois começaram a dar risada.
- Ju, você pode comer com a mão, sabia?
- Argh! Tá bom, você venceu. Não como batata frita, e muito menos com a mão. Pff! - Soltei o palito com a batata na borda da travessa. Ange pegou-o e comeu a batata, entregando-me o palito com outra batata nele. Sorri, sem saber o que dizer e comecei a comer.
- E aí... Gostou?

Web novela 2. Capítulo 21.


21º capítulo
‘‘Foi por medo de avião que eu segurei pela primeira vez a tua mão’’ – Belchior.

A.
Chegando ao restaurante que estava mais para bar, nos sentamos na segunda mesa e Cody ficou usando o velho cardápio de aviãozinho. Olhei pela porta por algum tempo, esperando que Caleb aparessesse, mas o barulho do cardápio caindo no chão e levando o pote de sal junto chamou minha atenção. O garoto tentou pegar e escorregou, parando em baixo da mesa. Olhou-me por alguns segundos com os olhos estreitos e entortou a boca.
- Foi sem querer! – Arregalou os olhos. – Eu juro! – Estendi a mão, rindo.
- Ta tudo bem. – Sorri e ele segurou minha mão. Puxei-o para o banco e abaixei-me para pegar o que havia caído no chão. Apoiei uma mão no chão para me levantar e deparo-me com sapatos de salto a poucos centímetros de mim. Subi lentamente o rosto e vejo Julieta. Parada, olhando-me como se eu fosse uma louca.
- Te daria a mão para levantar, mas acho que esse chão está muito sujo. – Fez uma careta. – Revirei os olhos e levantei-me sozinha. Coloquei as coisas na mesa e bati uma mão na outra.
- Nunca imaginei você vindo em um lugar... Sujo, como este. – Dei de ombros.
- Disse que o chão estava sujo. – Bufou. – Mas realmente, vim aqui para falar com você. – Arregalei os olhos e ela estalou os dedos. – Ah é, você não sabe como eu sei que você está aqui.
- O que diabos você ta falando?
- Ér...Caleb...
- Você conhece o papai? – Cody pulou do banco. Apertei os lábios.
- Cody, senta aqui que eu vou conversar com a moça e já venho. Vou mandar trazer batata frita pra você, ta bom? – Os olhos do garoto brilharam e concordou, sentando-se. Puxei Julieta pelo pulso para o balcão, pedi para levarem batatas na mesa e olhei-a calmamente.
- Fala.
- Era eu no telefone.
- Não... Não pode ser. – Respirei fundo. - E por que você não falou nada? Você tem idéia da confusão que armou? Ele pode estar me ligando agora. Pensei que ia resolver isso. – Bufei.
- Desculpa. - Ficamos alguns segundos em silêncio. - Ele é seu filho? – Apertou os lábios. Dei risada e balancei a cabeça negativamente. – Ah, que bom. – Sorriu.
- Bom... Por quê? – Arqueei a sobrancelha.

Web novela 2. Capítulo 20.


20º capítulo
‘’Foi engano‘’

J.
Quando minha mãe finalmente foi embora, voei para o telefone e disquei o restante dos números que haviam nas minhas chamadas perdidas. Muitas decepções depois, Angélica atendeu.
- Alô? – Disse com uma voz baixa e delicada. Fiquei muda. Não sabia o que falar. Não que eu não quisesse, mas simplesmente não saiam palavras pelos meus lábios. – Alô? – Repetiu, um pouco mais alto, mas ainda em quase sussurro. Pensei em falar algo, mas meu corpo não se movia. Ela repetia mais uma vez e eu continuava sem saber o que dizer. Fechei os olhos e respirei fundo para falar algo. Qualquer coisa já estaria bom. - Ok, eu sei que é difícil pra você, mas você não pode simplesmente largá-lo aqui comigo! – Fiquei mais muda do que antes, se possível. Ótimo, agora ela achava que era outra pessoa. Como eu ia sair dessa? Ela continuava berrando e marcando um encontro com um tal de Caleb que eu nem fazia idéia de quem pudesse ser. Tampei o nariz para fazer uma voz diferente.
- Foi engano. – Praticamente gritei... Só que ao mesmo tempo em que ela desligou.
E agora ela iria se encontrar com ninguém. Comecei a me sentir culpada por isso, pois poderia ser algo importante. Quer dizer, parecia ser algo importante. Levantei-me e caminhei até meu armário. O que se usa para ir ao Wendy’s? Já passei lá na frente várias vezes, mas nunca entrei. Acho que não é muito sofisticado. Peguei uma calça social e uma camisa branca, normal. Calcei um salto simples, prendi o cabelo, puxei minha bolsa branca e passei algumas coisas importantes para ela... Tudo o que havia na outra, e saí sem nenhuma pressa.

Web novela 2. Capítulo 19.


19º capítulo
‘‘You know how little I got. I can't give you anything’’ Ramones.


A.
O garoto me olhava como se eu fosse um alienígena. Fez que sim com a cabeça, ainda me olhando estranho. Fui até a torneira e enchi um copo de água. Retornei a frente dele, dessa vez mais perto, e entreguei o copo. Pegou sem dizer uma palavra, mas sentou-se de pernas de índio e soltou a manta.
- Como você se chama? – Perguntei novamente. Parou de beber imediatamente.
- Cody. – Sorriu, meio sem graça.
- Bonito nome. – Sorriu novamente, mas dessa vez sem dizer nada. O som do telefone chamou a minha atenção como nunca havia chamado antes. Caleb!
Peguei o aparelho e arrastei-o para o mais longe que pude do menino. O que não deu muito certo.
- Alô? – Praticamente sussurrei. Repeti duas vezes, mas continuei sem resposta. O silêncio predominou por algum tempo. – Ok, eu sei que é difícil pra você, mas você não pode simplesmente largá-lo aqui comigo! – Continuei sem nenhuma resposta. – Caleb! Eu cansei de estar aqui pra você, se você nem ao menos me explica o que está acontecendo! – O silêncio voltou e me irritei. – É assim? Então está bem. Esteja no Wendy’s daqui a meia hora, senão eu não me responsabilizo pelo Cody, ok? – Bati o telefone e voltei para perto do menino. Olhava para baixo novamente.
- Você vai me largar lá, né? – Sussurrou. Engoli a seco. É lógico que não ia largá-lo, mas eu esperava que isso não fosse tão óbvio para seu pai. Aproximei-me e sorri.
- Não vou te deixar. É só um jeito de fazer seu pai me procurar.
- Ah. – Seu desânimo me contagiava.
- Quem está com fome? – Sorri. Cody sorriu de volta e jogou-se no chão com a língua pra fora e os olhos fechados. Gargalhei disso enquanto ele fingia estar morrendo. Levantei-me, prendi o cabelo e chamei-o para sairmos.
- Mas eu não vou trocar de roupa? – Arregalou os olhos, enquanto se levantava. Ele estava vestido normalmente, então estranhei.
- Se quiser... - Pulou e veio até mim, junto a porta.
- Não, muito obrigado. – Riu e fiquei olhando-o. – O que foi?
- Nada, não. Vamos! – Sorri e ele saiu pulando pelo corredor.

Web novela 2. Capítulo 18.

















18º capítulo
‘’ Você é louca?‘’

J.
Entrei em casa e caminhei até o banheiro, jogando tudo pelo caminho, como sempre. Liguei a água para encher a banheira e fui até o quarto, encontrando quem eu menos gostaria de encontrar.
-Mãe! – Gritei. – O que você está fazendo aqui? Como entrou aqui? – Arqueou a sobrancelha para mim.
- Já me viu não conseguir entrar em algum lugar, Julieta? – Bufei.
- Quem eu matei agora, para receber sua visita? – Revirou os olhos e cruzou os dedos uns nos outros.
- Você é louca? – Cruzei os braços. - Por que saiu daquele jeito da sala de um homem tão importante? – Sentei-me na poltrona e soltei meu corpo que foi escorregando até eu estar quase deitada na mesma. – Você se lembra alguma coisa sobre as aulas de etiqueta que te dei? Já te disse que você não precisa de um emprego, mas se fez tanta questão de um, por que não aproveitou a chance? – Comecei a reparar nos botões do casaco dela. E tudo o que eu ouvia era um zumbido constante, que durou tempo suficiente para me dar sono e fome.

Web novela 2. Capítulo 17.


17º capítulo
‘‘I say, baby please don't lie. 'Cause I really know boys’’ – Mallu Magalhães.

A.
- Vai almoçar comigo, hoje? – Perguntou Joe, pegando a jaqueta e a carteira.
- Vou pra casa. Tenho que pegar uns papéis, pagar contas e fazer encomendas hoje. To lotada de coisa pra fazer, então nem sei se volto pra fechar hoje. – Suspirei, juntando os extratos que tinha pegado do escritório. Despedi-me de todos e fui pagar algumas contas, mas como o sol e a minha fome estavam começando a me incomodar, peguei um ônibus e fui para casa.
Chegando ao meu prédio, percebi que Carlinhos dormia em cima do telefone. Assoviei para que acordasse, e acabou tomando um susto.
- Assim não dá, Carlinhos! Como vou me sentir segura com o senhor dormindo na portaria?
- Tava só descansando, menina. Ninguém passa aqui sem eu saber. – Bateu continência, fazendo-me pensar segundos no motivo por tê-lo feito. Subi pelas escadas, pois o elevador estava quebrado novamente. Quando encaixei a chave na fechadura para destrancar, a porta se abriu sozinha. Lentamente e barulhenta, fazendo-me ficar em choque algum tempo diante do batente.

Após ficar estática alguns segundos, dei alguns passos para dentro do meu apartamento. Senti-me como se estivesse em um filme de terror. Não sabia o que fazer, pois tinha a leve desconfiança de que isso tinha algo a ver com Caleb. E se eu chamasse a polícia e ele estivesse com problemas sérios? Ele poderia se dar mal por minha causa. Empurrei lentamente o que faltava da porta para se abrir e vi um ponto rosa enrolado no meu colchão, com malas ao lado. Respirei fundo e não soltei o ar, só repeti mentalmente ‘’não’’.

Controlei minha respiração e fechei a porta sem fazer barulho. Fui até o colchão, onde havia um menino de aproximadamente oito anos enrolado em uma manta rosa. Puxei a parte de cima da manta que cobria o garoto e vi claramente que ele tinha traços de Caleb. Bufei e soquei o ar. Levantei e tentei dar passos leves para o banheiro para não acorda-lo, mas acabei tropeçando em uma pilha de roupas minhas, jogadas por aí, como sempre. Caí no piso de madeira, que fez o som necessário para acordar o garoto no susto. Deu um pulo, meio atordoado, enrolou-se na manta novamente e continuou me encarando com uma expressão de medo.

- Calma! Não vou te machucar. - Tentei sorrir, mas estava atordoada demais para tal.
- Você é a Angélica? - Perguntou ainda enrolado entre panos, o que abafou sua voz.
- Sou. Seu pai é meu amigo, você sabe onde ele está? - O garoto abaixou a cabeça, sumindo no meio do rosa. Aproximei-me e retirei a manta de seu rosto. – Ei, o que foi?
- O papai foi embora de novo, né? - Contraí os lábios.
- O que ele disse pra você?
- Que você ia chegar logo aqui, e que ele só ia comprar pão. – Franziu a testa para mim e abaixou mais a cabeça. Achei que ele estivesse chorando, e comecei a entrar em desespero.
- Garoto?
- Ele prometeu que nunca mais ia embora! Prometeu pra mim. – Respirei fundo novamente.
- Como você chama? – Fungou e espirrou, devido ter ficado com o rosto na manta, provavelmente. Observei o garoto espirrar e fiquei pensando se deveria fazer alguma coisa. Não entendo nada de crianças, e espero realmente que Caleb entre por aquela porta nos próximos minutos com um saco de pão.
- É... Então. Você gosta de... – Olhei em volta -... Água?

Web novela 2. Capítulo 16.

















16º capítulo
‘’Isso é possível?‘’

J.
- Moça? – Olhei para trás e um homem com estilo meio grunge estava com a mão estendida para mim. – Precisa de ajuda? – Sorriu.
- Ah. – Segurei sua mão e levantei-me. – Eu estou bem.
- Tem certeza? – Abaixou-se e pegou meus sapatos do chão. Senti meu rosto corar rapidamente. – Acho que são seus. – Entregou-me.
- É, são. – Sorri, sem graça. – Eu normalmente não sou assim, sabe... Desse jeito, que você ta me vendo, entende? – Ele riu.
- A Cinderela tem nome? – Sorriu, e puxou o louro cabelo um pouco para trás. Desnecessário, pois seu cabelo era bagunçado, num estilo Kurt.
- Julieta.
- Errei a história, então. – Entortou a boca – Prazer, Romeu.
- Sei. – Dei risada e revirei os olhos. – Sério, qual seu nome?
- Romeu, ora! – Insistiu.
- Ta, ta. – Suspirei. Olhei para os lados procurando por um banco e fui caminhando até ele, com os sapatos na mão. Sentei-me e percebi que o rapaz estava parado no mesmo lugar, olhando-me curioso. Não liguei e calcei um dos sapatos, e logo depois o outro. Voltei para onde estava e parei em frente a ele. – Que horas são? – Encarei seu relógio de pulso.
- Hora de almoçar. – Arqueei a sobrancelha. – Quase meio dia. – Deu de ombros.
- Isso é possível? – Bufei.
- O que é possível? – Encarou-me.
- O tempo passar tão rápido.
- Só quando a gente não está trabalhando. – Riu.
- E o que você faz da vida?
- Entrego pizza pra ganhar dinheiro e toco numa banda pra me divertir.
- E por que você não toca na banda pra ganhar dinheiro?
- Digamos que não é assim tão fácil. – Apertou os olhos.
- Acho que eu preciso ir embora. – Procurei meu celular pela bolsa e liguei-o quando achei.
- Não quer almoçar comigo? - Colocou as mãos nos bolsos da calça, o que chamou um pouco a minha atenção. Mas bem pouco.
- Não dá, tenho que ir. Preciso ligar para alguém. – Olhei para o nada e comecei a pensar onde Angélica estaria agora. Será que eu a veria de novo? Um estalo de dedos despertou-me dos meus pensamentos.
- Então, ta. – Sorriu de canto. – Adeus, querida Julieta. – Ri baixo e balancei a cabeça negativamente.
- Adeus, querido Romeu. – Sorri de volta e caminhei até um ponto de táxi. Fiquei o caminho até minha casa ligando para os números de chamadas perdidas no meu celular, mas nenhum era o dela. Ou ela não me atendia, não sei. Cheguei a portaria e esperei o elevador ansiosa, pois estava louca para tomar um banho e cair na minha cama. E tentar ligar para Ange novamente, claro.
- Por que não consigo parar de pensar nela? – Suspirei.
- Falou comigo, senhorita? – Perguntou um senhor ao meu lado.
- Não, só pensei alto. – Esfreguei os olhos e repeti mentalmente “Você está ficando louca. Muito louca”.