5º capítulo
‘’ O teu olhar no meu olhar estremece e faz efeito.
E tudo acontece se for daquele jeito’’- Strike.
A.
Devo ter ficado alguns minutos observando a irritação daquela garota. Ela tinha cabelos castanhos claros, que caíam sobre o ombro com pequenas ondas. Vestia um vestido azul elegante e sapatos combinando. Acho que jamais me vestiria assim. A garota tinha um bronzeado de praia e aparentava ser insuportavelmente rica e metida. Olhou-me com o mesmo olhar que minha mãe me olhava quando descobria que eu matava aula.
- Estranha? – Berrou.
- Bom... Não foi bem o que eu quis dizer. – Entortei a boca.
- Ah, não foi? O cara com quem acordei hoje não quis sair comigo, e eu nem lembro o nome dele. Estou atrasadíssima para uma festinha infantil com a minha família, para ouvi-los dizer tudo o que pensam sobre a minha promiscua vida fora de casa e sem um marido. E você acha que eu ligo pra uma droga de carro? – Estreitei os olhos, com certo receio. Ela era assustadora, mas algo nela me fazia ficar confiante diante disso.
- Você costuma desabafar com estranhos, ou só eu sou sortuda assim?
- Pff! – Caminhou até seu carro, pegou a bolsa e foi andando pela calçada. Não entendi ao menos o porquê, mas eu tinha que ir atrás dela. Afinal, não podemos deixar alguém fora de seu juízo normal andar sozinha na rua... Não é?
- Ei! – Corri para alcançá-la, que fez o favor de nem olhar pra trás. – Você é sempre tão grossa assim? – Tentei acompanhar seus longos, porém lentos e delicados passos com saltos altos.
- Você é sempre tão desarrumada assim? – Deu de ombros.
- Na verdade, sim. Eu sou. – A garota continuava em silêncio. – Posso saber seu nome?
- Hum. – Tentou fazer uma cara pensativa e deu de ombros novamente. – Julieta.
- Prazer, Angélica. – Soltei, naturalmente.
- Para de ser educada comigo, isso ta me irritando. – Fechou a cara.
- O que não te irrita? – A garota parou de andar de imediato e apoiou o rosto nas duas mãos.
- Desculpa, não é com você. – Respirou fundo – É que ultimamente eu ando me estressando tanto e... – Olhou-me – Acabo descontando em quem não tem culpa. – Sorri e aproximei-me dela.
- Tudo bem, eu te entendo. Já fiz muito isso. – Lembrei-me de quando brigava vários dias seguidos com todos. Sim, aquela garota realmente havia bagunçado minha vida.
- Então, vou pegar um táxi ali em frente. Tenho mesmo que ir. – Não sei porque exatamente, mas não me sentia assim há anos. Com certo... Medo, vontade, receio.
- Ah, claro. Eu vou... Fugir da galera que tava no carro e me enfiar em algum lugar onde eles não me achem. – Cocei a cabeça e ela olhou-me pensativa.
- Vem comigo? – Primeiro, eu engasguei.
- Que?
- Venha comigo pro aniversario do meu sobrinho? – Depois entortei a boca. Não que eu não quisesse ir, mas tudo isso parecia bem estranho. Eu acabava de a conhecer, gritar com ela, acalmá-la e vê-la não ligar para um carro caro. – Olha, eu não sou uma louca que sai chamando estranhos para sair comigo. Mas eu não quero mesmo enfrentar minha família sozinha, e você ta de bobeira mesmo, não tem nada pra fazer. Se quiser eu pago. – Sorriu, como se nem tivesse me humilhado. Balancei a cabeça negativamente.
- Cresce. E aprende que dinheiro não compra tudo. – Dei meia volta e em menos de três passos, senti pequenas mãos puxando-me pelo braço. Ela olhou-me como quem pede desculpas. Não pediu, mas não precisava. Soltou meu braço e entrelaçou as próprias mãos, implorando-me.
- Por favor? – Apesar daquela cena quase me emocionar, eu ainda tenho princípios. Não havia a menor, das menores possibilidades de eu passar perto da tal festinha. Rum!