26º capítulo
‘’Game Boy ‘’
J.
Acabei pegando o trânsito do século tentando voltar para casa. Tinha como eu entrar em algumas ruas estreitas, mas não fazia idéia de para onde elas iriam me levar. Resolvi arriscar. Virei o carro no meio de vários outros, o que causou um tumulto entre os motoristas, o que não me importou muito, é claro. Tentei dirigir lentamente no pouco espaço que tinha, mas não consegui, pois estava anciosa para sair dali. Uma rua me levava a outra e eu me sentia cada vez mais perdida. A única sinalização que podia se ver eram os cartazes de algum evento, mas nada de como sair dali. Perdi a paciência e parei o carro no meio da rua, desci e caminhei impacientemente até um senhor que passava pela rua. Pensei em lhe perguntar algo, mas avistei uma mercearia, ou algo assim. Acelerei os passos e entrei procurando por alguém que pudesse me atender. Não vi ninguém de nenhum dos lados do balcão, não vi ninguém em lugar nenhum. Olhei pra rua e o velhinho já havia ido embora. Pff! Como poderia existir um lugar tão vazio? Resolvi dar uma olhada nas prateleiras enquanto esperava alguém aparecer. Coisas que eu não via desde que era criança ocupavam as cestas á venda. Observei alguns doces e salgadinhos, até que algo chamou a minha atenção. Aqueles joguinhos pequenos... Como chamavam mesmo? Game Boy! Acho que era isso. Peguei um na mão e comecei a apertar os botões até a tela começar a piscar. Tinham opções de jogos diferentes, isso me deu certo ânimo. Cliquei em um e um aviãozinho apareceu. Quer dizer, pequenos quadradinhos escuros que formavam o desenho de um avião. Apertei um dos botões e começaram a sair bolinhas dele. Tentei entender o propósito do jogo, mas quando estava chegando á alguma conclusão meu coração dispara de susto. Uma mulher baixa inclinava-se nas pontas dos pés para alcançar meu ombro. Virei-me rapidamente e ela sorriu.
- Posso ajudar a moça? - Seu jeito de falar era diferente, meigo. Não chegava a ser um caipira. Ela sorria e secava uma de suas mãos no avental florido. - A senhora me desculpa, que eu tava lavando a louça e nem ouvi ninguém entra. Só percebi por causa dos pi pi pi que esse negócio ai faz! - Apontou para o aparelho na minha mão. Agora pude perceber melhor seu sotaque, seu jeito. Era sim um pouco caipira.
- Ah... Magine! Eu tava olhando o joguinho. - A mulher me olhou de uma forma estranha. Senti meu rosto corar. - Não pra mim, pro meu filho, lógico!
- Ah, ta bom. - Olhou-me de cima a baixo, falando com descrença. Aquilo me irritou um pouco.
- Vou levar um desse, então. - Andei lentamento atrás dela, e esperei apoiada ao balcão. Peguei algumas balas no caminho e coloquei junto ao jogo.
- É só isso? - Sorriu. Fiz que sim e paguei. Perguntei a ela como poderia voltar para o centro e ela passou alguns minutos me explicando. Despedi-me e agradeci, mas quando estava quase saindo vi um cartaz, exatamente igual aos milhares que estavam espalhados pelas ruas. Anunciavam um evento com bandas se apresentando em uma pizzaria. Reconheci facilmente o rapaz que havia conhecido na praça, em uma das fotos. Seu rosto estava ligado ao nome de alguma das bandas, não sabia qual delas. Li o endereço, já conhecido e anotei data e hora no meu celular. Olhei para a rua, não havia passado nenhum carro por aqui, pois senão estaria atrás do meu esperando. Entrei no carro e abandonei o local deserto.