quinta-feira, 28 de abril de 2011

Web novela 2. Capítulo 26.


26º capítulo
‘’Game Boy ‘’

J.
Acabei pegando o trânsito do século tentando voltar para casa. Tinha como eu entrar em algumas ruas estreitas, mas não fazia idéia de para onde elas iriam me levar. Resolvi arriscar. Virei o carro no meio de vários outros, o que causou um tumulto entre os motoristas, o que não me importou muito, é claro. Tentei dirigir lentamente no pouco espaço que tinha, mas não consegui, pois estava anciosa para sair dali. Uma rua me levava a outra e eu me sentia cada vez mais perdida. A única sinalização que podia se ver eram os cartazes de algum evento, mas nada de como sair dali. Perdi a paciência e parei o carro no meio da rua, desci e caminhei impacientemente até um senhor que passava pela rua. Pensei em lhe perguntar algo, mas avistei uma mercearia, ou algo assim. Acelerei os passos e entrei procurando por alguém que pudesse me atender. Não vi ninguém de nenhum dos lados do balcão, não vi ninguém em lugar nenhum. Olhei pra rua e o velhinho já havia ido embora. Pff! Como poderia existir um lugar tão vazio? Resolvi dar uma olhada nas prateleiras enquanto esperava alguém aparecer. Coisas que eu não via desde que era criança ocupavam as cestas á venda. Observei alguns doces e salgadinhos, até que algo chamou a minha atenção. Aqueles joguinhos pequenos... Como chamavam mesmo? Game Boy! Acho que era isso. Peguei um na mão e comecei a apertar os botões até a tela começar a piscar. Tinham opções de jogos diferentes, isso me deu certo ânimo. Cliquei em um e um aviãozinho apareceu. Quer dizer, pequenos quadradinhos escuros que formavam o desenho de um avião. Apertei um dos botões e começaram a sair bolinhas dele. Tentei entender o propósito do jogo, mas quando estava chegando á alguma conclusão meu coração dispara de susto. Uma mulher baixa inclinava-se nas pontas dos pés para alcançar meu ombro. Virei-me rapidamente e ela sorriu.
- Posso ajudar a moça? - Seu jeito de falar era diferente, meigo. Não chegava a ser um caipira. Ela sorria e secava uma de suas mãos no avental florido. - A senhora me desculpa, que eu tava lavando a louça e nem ouvi ninguém entra. Só percebi por causa dos pi pi pi que esse negócio ai faz! - Apontou para o aparelho na minha mão. Agora pude perceber melhor seu sotaque, seu jeito. Era sim um pouco caipira.
- Ah... Magine! Eu tava olhando o joguinho. - A mulher me olhou de uma forma estranha. Senti meu rosto corar. - Não pra mim, pro meu filho, lógico!
- Ah, ta bom. - Olhou-me de cima a baixo, falando com descrença. Aquilo me irritou um pouco.
- Vou levar um desse, então. - Andei lentamento atrás dela, e esperei apoiada ao balcão. Peguei algumas balas no caminho e coloquei junto ao jogo.
- É só isso? - Sorriu. Fiz que sim e paguei. Perguntei a ela como poderia voltar para o centro e ela passou alguns minutos me explicando. Despedi-me e agradeci, mas quando estava quase saindo vi um cartaz, exatamente igual aos milhares que estavam espalhados pelas ruas. Anunciavam um evento com bandas se apresentando em uma pizzaria. Reconheci facilmente o rapaz que havia conhecido na praça, em uma das fotos. Seu rosto estava ligado ao nome de alguma das bandas, não sabia qual delas. Li o endereço, já conhecido e anotei data e hora no meu celular. Olhei para a rua, não havia passado nenhum carro por aqui, pois senão estaria atrás do meu esperando. Entrei no carro e abandonei o local deserto.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Brasil, acorda!


Rebaixada, impotente, irrelevante. É assim que eu me sinto cada vez que ligo a televisão ou leio o jornal.

Hoje a história não foi diferente: os vereadores e prefeito de Sorocaba receberam aumento no salário. Isso foi decidido por ninguém menos que eles. Temos políticos decidindo o salário de políticos e somos nós quem pagamos essa grana toda. Por que o povo não tem direito de voto quando se trata do dinheiro que sai do nosso bolso e vai para o bolso deles? Porque tenho certeza que nenhum deles vai pagar saúde, educação ou bem-estar público com o dinheiro endereçado a eles.
Já não basta todo o dinheiro que roubam do que era para ser gasto com a população, agora passam a ganhar em um mês mais do que muitos não ganham nem em um ano? A situação chega a ser inacreditável.
Válido discutir o merecimento dos políticos sobre este dinheiro. Por exemplo, o fato de algumas pessoas terem reclamado de ter esperado mais de cinco horas para poderem fazer um boletim de ocorrência na delegacia. E por que? Não tinha quem atender os cidadãos que acabavam de ser assaltados.
Acham isso justo? Acham que essas pessoas representantes do povo, que deveriam assegurar os direitos e boa qualidade de vida da população, merecem realmente ganhar mais do que ja ganhavam? Merecem o cargo em que estão? Afinal, se dá para viver nas condições em que temos hoje, desafio aos proprietários de tais cargos á viver com salários mínimos, frequentar postos de saúde e hospitais lotados de pessoas que não conseguem ser atendidas. Colocar seus filhos e netos em escolas públicas, onde muitas vezes as aulas não são dadas por falta de profissionais na área, nada surpreendende considerando o salário de um professor atualmente. Á pegar um ônibus ou um metrô em segurança e boas condições de transporte e na estrada. Sem obviamente fazer isso uma vez por ano, perto das eleições.

Brasil, o que há de errado? Onde estão os brasileiros que pintavam as caras, faziam protestos, gritavam até serem ouvidos, faziam arte e música para expressar a revolta contra o que era errado. Para demonstrar que somos o povo, somos mesmo. Quem deveria ter maiores direitos e melhores condições. Tantos lutaram, foram exilados e mortos, para hoje ficarmos sentados esperando alguma coisa mudar? Brasil, acorda. Quem tem o poder da maioria aqui somos nós, só nos acostumamos a não usar esse poder. De sair nas ruas e parar o trânsito para provarmos que podemos sim, fazer alguma coisa.
Brasil, acorda! Antes que seja tarde demais.

sábado, 16 de abril de 2011

Web novela 2. Capítulo 25.


25º capítulo
‘‘ I know that's hard to be stuck with people that you love when nobody trust. ’’ – Avril Lavigne.

A.
Ela foi embora e eu fiquei olhando aquelas fotos e desenhos. Não os via mais como tristeza, via como razão de Julieta ter ido embora. Andei silenciosamente em volta de Cody e tirei tudo o que havia colado na parede, folha por folha, fotografia por fotografia. Juntei tudo sem me importar, puxei uma das caixas de papelão do banheiro e coloquei dentro. Aquilo parecia um santuário para alguém que morreu. E ela não tinha morrido, tinha me deixado porque quis me deixar. Agora que eu estava precisando de ajuda para lidar com uma criança, um amigo sumido... Onde ela estava? Sempre estive a ouvindo, nunca reclamei. Mas percebi que nenhuma vez eu pude desabafar, e agora que preciso dela... Ela estava em outro lugar, com outra pessoa, aposto. Horas se passaram e eu estava cansada, estressada. Fui jogar o resto do café frio na pia quando ouvi a campainha. Senti meus batimentos na garganta. Era Julieta. Corri para a porta abrindo-a com um sorriso estampado.
- Oi. - Uma mulher gorda com cabelos louros tingidos presos num coque, usando um vestido justo florido, sorria para mim.
- Oi. Quem é você? - Parei de sorrir.
- Sou Vanda. Estou procurando por um garoto chamado Cody. - Engoli a seco. Não respondi. - Ele está com você?
- Não conheço nenhum garoto com esse nome. Na verdade, acho que não conheço nenhuma criança. - Sorri.
- Imagino. - Indagou, encarando minhas tatuagens. - Boa noite. - Virou-se e foi embora. Entrei bufando e sentei-me ao lado do menino, que ainda dormia. Olhei para o relógio, eram quase sete horas. Deitei-me ao lado dele, virei para o outro lado e tentei dormir.

Web novela 2. Capítulo 24.


24º capítulo
‘’Café. ‘’

J.
Ou por você? Por você! No que eu estava pensando? Ela deveria achar que eu sou uma bela idiota. Estávamos falando sobre café, simples. Era algo que eu poderia responder facilmente. Bufei, olhando para os carros que passavam lá em baixo. Alguns minutos depois, observei um pequeno acidente entre dois carros. Uma pequena batida, que fez os motoristas descerem do carro para discutir. Lembrei-me de como estava nervosa quando conheci Angélica.
- Prontinho. - O cheiro de café estava maravilhoso. Ange segurava uma xícara próxima ao meu rosto. Peguei-a delicadamente e voltei a me apoiar na grade da sacada. Ela fez o mesmo, com uma xícara três vezes maior que a minha.
- Nossa... Você gosta tanto assim de café? - Espantei-me.
- Ah... Um pouco. - Sorriu de canto e olhou para baixo, onde encontrava-se o acidente que havia chamado minha atenção. - Nossa, que batida feia.
- Você acha? - Dei de ombros. - Já bati tanto o carro.
- E você acha isso normal? - Arregalou os olhos.
- Na maioria das vezes sim.
- E quando não é? - Tomou um gole do café e eu fiz o mesmo, pausando a conversa.
- Bom, uma vez meu carro capotou, tenho cicatrizes até hoje. - Retomei, e aproximei meu rosto dela. - Aqui na minha sobrancelha.
- Acho que preciso de uma lupa. - Brincou.
- Tem outras, tá! - Bufei.
- Mas essa está realmente grande. - Ironizou. Aproximou o rosto e nossos olhares se cruzaram por alguns instantes. Corei e olhei para a rua novamente.
- E aí, quando chega sua mudança? - Mudei de assunto.
- Não chega, na verdade. - Tornei o olhar para ela. - Quando comprei e mudei para o apartamento, só compramos o necessário. E desde então não comprei mais nada.
- Compramos? - Perguntei sem vontade nenhuma de saber a respota.
- Eu e uma pessoa. Alguém que foi embora, enfim.
- Hum. - Apertei os lábios e meu coração acelerou. - Cadê o Cody? - Mudei de assunto novamente.
- Dormindo eu acho. Ou ele finge muito bem. - Olhei para o colchão pouco atrás de onde estávamos. Enxerguei uma parede com fotos e desenhos. Eram fotos com Angélica e uma mulher de cabelos castanhos na altura do ombro. Senti um incômodo imenso.
Caminhei até chegar ao balcão e coloquei a xícara com o resto do café em cima. Angélica seguiu-me e fez o mesmo.
- Você tá bem?
- Sim. - Sorri. - Mas to indo embora, preciso ir, quer dizer.
- Por que? - Mordeu o lábio inferior espontaneamente.
- Não sei, só preciso. Me desculpa? - Encarei o chão.
- Pelo que? - Aproximou-se, tirou minha bolsa do meu ombro e colocou no balcão. Segurou minhas mãos e olhou fixamente para mim. - Ei, o que foi?
- Nada. - Levantei o olhar e senti minha respiração parando aos poucos. - É só que... Você faz isso, sabe? - Olhei para suas mãos.
- O que? - Soltou minhas mãos e arregalou os olhos. - Só tava tentando ser legal.
- Não! Eu sei. - Balancei a cabeça negativamente. - Só preciso ir, ta?
- Tudo bem. - Deu de ombros. Peguei minha bolsa e beijei seu rosto, saindo em seguida.
Desci as escadas rapidamente e dirigi para casa, tentando me entender.

Web novela 2. Capítulo 23.



23º capítulo
‘‘ Eu gosto demais de tudo que você faz ’’ – Peninha.

A.
- Amei! - Exaltou-se Julieta, ao me responder. Afastei-me espontaneamente e observei-a pegar as batatas com a mão. - Isso é a melhor coisa do mundo. Como eu fiquei tanto tempo sem comer?
- Não sei... - Disse rindo. Ela parecia uma criança experimentando algo pela primeira vez. Não conseguia parar de olhar. - Então... Você me ligou.
- É... - Parou de comer e sorriu.
- Por que? - Parou de sorrir e começou a gaguejar. De novo.
- Ah... Nada. Quer dizer, nada de mais. Não que fosse pra nada. Eu liguei porque eu liguei... Entendeu? - Acabei rindo dela e antes que pudesse responder, Cody bocejou com os olhinhos já se fechando.
- Acho que eu preciso ir.
- Ah... Mas tão cedo? - Olhei no relógio, eram 15h.
- É, mas parece que alguém não anda dormindo direito. - Olhei para o garoto pelo canto do olho.
- Ah... Tudo bem. - Sorriu meio de lado com o olhar cabisbaixo.
- Mas você pode vir com a gente... Se quiser claro. - Sorri, obviamente antes de lembrar que meu apartamento não tinha mobília.
- Magina, eu ainda tenho que passar na minha irmã hoje... - Deu de ombros.
- Nina, não é? - Sorriu forçadamente, o que me assustou, e fez um bico.
- Acho que posso deixar isso para amanhã. Se o convite ainda estiver de pé...
- Lógico. - Concordei com certo descaso, mas não conseguia parar de pensar na cara que ela faria quando chegássemos lá.
- Sigo vocês com o meu carro? - Acabei rindo sem querer.
- Se quiser seguir o ônibus. - A garota apertou os lábios.
- Então vocês vem de carona comigo. - Sorriu. - Pode ser?
- Tá bom. - Aceitei meio preocupada que ela se lembre de quem bateu no carro dela. Pagamos a conta e seguimos para a rua. Julieta caminhou pouco e parou frente à um carro vermelho. - Então não estamos procurando por um Porsche?
- Ah é, eu tenho outro. - Sorriu mostrando-se sem graça. Cody começou a pular.
- Vamos voltar de carrão? - Nós rimos e entramos no carro.
Expliquei onde era meu prédio e chegando lá ela estacionou numa vaga proibida, sem ligar muito pra isso. Acenei para Carlinhos e subimos as escadas. Pensei que fosse ouvir alguma reclamação, mas nenhum dos dois disse nada e chegamos a minha porta em silêncio. Coloquei a chave e abri a porta, Cody correu para o banheiro e ficamos nós duas lá fora, olhando uma para a cara da outra.
-Entra. - Sorri. - Só não liga pra... Falta de bagunça.
- Tá... - Suas sobrancelhas demonstravam que ela não havia entendido o que eu tinha dito. Mas com a parada que deu ao chegar no centro do apartamento, pude perceber que entendeu. - Não sabia que tinha acabado de mudar. - Riu.
- É... - Ri forçadamente, não querendo dizer nada. - Quer café?
- Sim. - Sentou-se no meu balcão. Não conseguiria imaginá-la fazendo isso, se não estivesse vendo. - Só se o seu café for bom.
- Você vai se apaixonar por ele. - Dei risada, completamente orgulhosa e confiante, lógico.
- Ou por você. - Entortou a cabeça e desceu do balcão, indo para a sacada. Continuei imóvel, não sabia nem o que responder, ela me deixava... Idiota. Ouvi a descarga do banheiro e logo depois a porta se abrindo. Cody surgiu como um raio na minha frente.
- Lavou as mãos? - O garoto corou.
- Sim... - Bufei.
- Vai lavar as mãos, porquinho.
- Ta bom. - Fez um bico e foi para o banheiro pisando pesado. Peguei o saco de café e olhei para Julieta, que observava a rua. Ela parecia pensativa.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Web novela 2. Capítulo 22.


22º capítulo
‘’ Não sei ‘’

J.
Tentei pensar por alguns segundos, mas cheguei a conclusão que nem eu sabia o porquê de ter dito aquilo.
- Ah, não sei. – A garota encarou-me e pude sentir seu olhar lendo minha mente. Pisquei algumas vezes e comecei a gaguejar, nada além do normal. – Não que eu não goste de crianças, não é isso. Eu até gosto, quando elas não parecem mais saquinhos de sujeira ou quando não gritam muito. E também quando não falam muito. – Arqueou uma sobrancelha e continuou em silêncio. – Tá, não gosto muito.
- Nunca quis ter filhos. Agora isso... - Suspirou.
- Esse Caleb... É seu namorado? - A garota começou a rir, espantada.
- Absolutamente não.
- Ah. - Não sabia o que falar, não sabia se eu deveria ir embora.
- Ah... Que bom? - Sorriu espontâneamente. Formaram-se covinhas no seu rosto chamando minha atenção. Ela era muito linda. Demorei alguns segundos para entender o que ela quis dizer, acabei corando e ri sem dizer nada. - Bom, já que está aqui, senta com a gente?
- Não, magina. Preciso ir embora.
- Precisa? - Olhou-me de um jeito que me fazia esquecer o que eu ia dizer.
- Ér... Acho que posso ficar um pouquinho.
- Ah... Que bom. - Riu e puxou-me pela mão para a mesa. Sentei ao lado dela e fiquei quieta e encolhida. O menino comia as batatas fritas quase sem mastigar, e com as mãos, muito estranho. Mas resolvi não falar nada. Ange começou a comer também e pediu um refrigerante para a garçonete. Resolveu notar que eu estava imóvel. - Não vai comer não? - Balancei a cabeça negativamente. Ela olhou-me de novo com aquele olhar de ''eu sei o que você está pensando.'' Ela já havia feito isso várias vezes e estava me irritando. - Você não come batata frita né?
- Como sim, as vezes.
- Então come agora. - Sorriu.
- Ah, mas eu não to com fome. - Dei de ombros.
- Você é muito fresca, sabia? - Pegou os copos e começou a encher.
- Não sou fresca. - Peguei um palito do recipiente, pois não haviam talheres na mesa, e espetei uma batata, com certo descaso. Os dois começaram a dar risada.
- Ju, você pode comer com a mão, sabia?
- Argh! Tá bom, você venceu. Não como batata frita, e muito menos com a mão. Pff! - Soltei o palito com a batata na borda da travessa. Ange pegou-o e comeu a batata, entregando-me o palito com outra batata nele. Sorri, sem saber o que dizer e comecei a comer.
- E aí... Gostou?

Web novela 2. Capítulo 21.


21º capítulo
‘‘Foi por medo de avião que eu segurei pela primeira vez a tua mão’’ – Belchior.

A.
Chegando ao restaurante que estava mais para bar, nos sentamos na segunda mesa e Cody ficou usando o velho cardápio de aviãozinho. Olhei pela porta por algum tempo, esperando que Caleb aparessesse, mas o barulho do cardápio caindo no chão e levando o pote de sal junto chamou minha atenção. O garoto tentou pegar e escorregou, parando em baixo da mesa. Olhou-me por alguns segundos com os olhos estreitos e entortou a boca.
- Foi sem querer! – Arregalou os olhos. – Eu juro! – Estendi a mão, rindo.
- Ta tudo bem. – Sorri e ele segurou minha mão. Puxei-o para o banco e abaixei-me para pegar o que havia caído no chão. Apoiei uma mão no chão para me levantar e deparo-me com sapatos de salto a poucos centímetros de mim. Subi lentamente o rosto e vejo Julieta. Parada, olhando-me como se eu fosse uma louca.
- Te daria a mão para levantar, mas acho que esse chão está muito sujo. – Fez uma careta. – Revirei os olhos e levantei-me sozinha. Coloquei as coisas na mesa e bati uma mão na outra.
- Nunca imaginei você vindo em um lugar... Sujo, como este. – Dei de ombros.
- Disse que o chão estava sujo. – Bufou. – Mas realmente, vim aqui para falar com você. – Arregalei os olhos e ela estalou os dedos. – Ah é, você não sabe como eu sei que você está aqui.
- O que diabos você ta falando?
- Ér...Caleb...
- Você conhece o papai? – Cody pulou do banco. Apertei os lábios.
- Cody, senta aqui que eu vou conversar com a moça e já venho. Vou mandar trazer batata frita pra você, ta bom? – Os olhos do garoto brilharam e concordou, sentando-se. Puxei Julieta pelo pulso para o balcão, pedi para levarem batatas na mesa e olhei-a calmamente.
- Fala.
- Era eu no telefone.
- Não... Não pode ser. – Respirei fundo. - E por que você não falou nada? Você tem idéia da confusão que armou? Ele pode estar me ligando agora. Pensei que ia resolver isso. – Bufei.
- Desculpa. - Ficamos alguns segundos em silêncio. - Ele é seu filho? – Apertou os lábios. Dei risada e balancei a cabeça negativamente. – Ah, que bom. – Sorriu.
- Bom... Por quê? – Arqueei a sobrancelha.

Web novela 2. Capítulo 20.


20º capítulo
‘’Foi engano‘’

J.
Quando minha mãe finalmente foi embora, voei para o telefone e disquei o restante dos números que haviam nas minhas chamadas perdidas. Muitas decepções depois, Angélica atendeu.
- Alô? – Disse com uma voz baixa e delicada. Fiquei muda. Não sabia o que falar. Não que eu não quisesse, mas simplesmente não saiam palavras pelos meus lábios. – Alô? – Repetiu, um pouco mais alto, mas ainda em quase sussurro. Pensei em falar algo, mas meu corpo não se movia. Ela repetia mais uma vez e eu continuava sem saber o que dizer. Fechei os olhos e respirei fundo para falar algo. Qualquer coisa já estaria bom. - Ok, eu sei que é difícil pra você, mas você não pode simplesmente largá-lo aqui comigo! – Fiquei mais muda do que antes, se possível. Ótimo, agora ela achava que era outra pessoa. Como eu ia sair dessa? Ela continuava berrando e marcando um encontro com um tal de Caleb que eu nem fazia idéia de quem pudesse ser. Tampei o nariz para fazer uma voz diferente.
- Foi engano. – Praticamente gritei... Só que ao mesmo tempo em que ela desligou.
E agora ela iria se encontrar com ninguém. Comecei a me sentir culpada por isso, pois poderia ser algo importante. Quer dizer, parecia ser algo importante. Levantei-me e caminhei até meu armário. O que se usa para ir ao Wendy’s? Já passei lá na frente várias vezes, mas nunca entrei. Acho que não é muito sofisticado. Peguei uma calça social e uma camisa branca, normal. Calcei um salto simples, prendi o cabelo, puxei minha bolsa branca e passei algumas coisas importantes para ela... Tudo o que havia na outra, e saí sem nenhuma pressa.

Web novela 2. Capítulo 19.


19º capítulo
‘‘You know how little I got. I can't give you anything’’ Ramones.


A.
O garoto me olhava como se eu fosse um alienígena. Fez que sim com a cabeça, ainda me olhando estranho. Fui até a torneira e enchi um copo de água. Retornei a frente dele, dessa vez mais perto, e entreguei o copo. Pegou sem dizer uma palavra, mas sentou-se de pernas de índio e soltou a manta.
- Como você se chama? – Perguntei novamente. Parou de beber imediatamente.
- Cody. – Sorriu, meio sem graça.
- Bonito nome. – Sorriu novamente, mas dessa vez sem dizer nada. O som do telefone chamou a minha atenção como nunca havia chamado antes. Caleb!
Peguei o aparelho e arrastei-o para o mais longe que pude do menino. O que não deu muito certo.
- Alô? – Praticamente sussurrei. Repeti duas vezes, mas continuei sem resposta. O silêncio predominou por algum tempo. – Ok, eu sei que é difícil pra você, mas você não pode simplesmente largá-lo aqui comigo! – Continuei sem nenhuma resposta. – Caleb! Eu cansei de estar aqui pra você, se você nem ao menos me explica o que está acontecendo! – O silêncio voltou e me irritei. – É assim? Então está bem. Esteja no Wendy’s daqui a meia hora, senão eu não me responsabilizo pelo Cody, ok? – Bati o telefone e voltei para perto do menino. Olhava para baixo novamente.
- Você vai me largar lá, né? – Sussurrou. Engoli a seco. É lógico que não ia largá-lo, mas eu esperava que isso não fosse tão óbvio para seu pai. Aproximei-me e sorri.
- Não vou te deixar. É só um jeito de fazer seu pai me procurar.
- Ah. – Seu desânimo me contagiava.
- Quem está com fome? – Sorri. Cody sorriu de volta e jogou-se no chão com a língua pra fora e os olhos fechados. Gargalhei disso enquanto ele fingia estar morrendo. Levantei-me, prendi o cabelo e chamei-o para sairmos.
- Mas eu não vou trocar de roupa? – Arregalou os olhos, enquanto se levantava. Ele estava vestido normalmente, então estranhei.
- Se quiser... - Pulou e veio até mim, junto a porta.
- Não, muito obrigado. – Riu e fiquei olhando-o. – O que foi?
- Nada, não. Vamos! – Sorri e ele saiu pulando pelo corredor.

Web novela 2. Capítulo 18.

















18º capítulo
‘’ Você é louca?‘’

J.
Entrei em casa e caminhei até o banheiro, jogando tudo pelo caminho, como sempre. Liguei a água para encher a banheira e fui até o quarto, encontrando quem eu menos gostaria de encontrar.
-Mãe! – Gritei. – O que você está fazendo aqui? Como entrou aqui? – Arqueou a sobrancelha para mim.
- Já me viu não conseguir entrar em algum lugar, Julieta? – Bufei.
- Quem eu matei agora, para receber sua visita? – Revirou os olhos e cruzou os dedos uns nos outros.
- Você é louca? – Cruzei os braços. - Por que saiu daquele jeito da sala de um homem tão importante? – Sentei-me na poltrona e soltei meu corpo que foi escorregando até eu estar quase deitada na mesma. – Você se lembra alguma coisa sobre as aulas de etiqueta que te dei? Já te disse que você não precisa de um emprego, mas se fez tanta questão de um, por que não aproveitou a chance? – Comecei a reparar nos botões do casaco dela. E tudo o que eu ouvia era um zumbido constante, que durou tempo suficiente para me dar sono e fome.

Web novela 2. Capítulo 17.


17º capítulo
‘‘I say, baby please don't lie. 'Cause I really know boys’’ – Mallu Magalhães.

A.
- Vai almoçar comigo, hoje? – Perguntou Joe, pegando a jaqueta e a carteira.
- Vou pra casa. Tenho que pegar uns papéis, pagar contas e fazer encomendas hoje. To lotada de coisa pra fazer, então nem sei se volto pra fechar hoje. – Suspirei, juntando os extratos que tinha pegado do escritório. Despedi-me de todos e fui pagar algumas contas, mas como o sol e a minha fome estavam começando a me incomodar, peguei um ônibus e fui para casa.
Chegando ao meu prédio, percebi que Carlinhos dormia em cima do telefone. Assoviei para que acordasse, e acabou tomando um susto.
- Assim não dá, Carlinhos! Como vou me sentir segura com o senhor dormindo na portaria?
- Tava só descansando, menina. Ninguém passa aqui sem eu saber. – Bateu continência, fazendo-me pensar segundos no motivo por tê-lo feito. Subi pelas escadas, pois o elevador estava quebrado novamente. Quando encaixei a chave na fechadura para destrancar, a porta se abriu sozinha. Lentamente e barulhenta, fazendo-me ficar em choque algum tempo diante do batente.

Após ficar estática alguns segundos, dei alguns passos para dentro do meu apartamento. Senti-me como se estivesse em um filme de terror. Não sabia o que fazer, pois tinha a leve desconfiança de que isso tinha algo a ver com Caleb. E se eu chamasse a polícia e ele estivesse com problemas sérios? Ele poderia se dar mal por minha causa. Empurrei lentamente o que faltava da porta para se abrir e vi um ponto rosa enrolado no meu colchão, com malas ao lado. Respirei fundo e não soltei o ar, só repeti mentalmente ‘’não’’.

Controlei minha respiração e fechei a porta sem fazer barulho. Fui até o colchão, onde havia um menino de aproximadamente oito anos enrolado em uma manta rosa. Puxei a parte de cima da manta que cobria o garoto e vi claramente que ele tinha traços de Caleb. Bufei e soquei o ar. Levantei e tentei dar passos leves para o banheiro para não acorda-lo, mas acabei tropeçando em uma pilha de roupas minhas, jogadas por aí, como sempre. Caí no piso de madeira, que fez o som necessário para acordar o garoto no susto. Deu um pulo, meio atordoado, enrolou-se na manta novamente e continuou me encarando com uma expressão de medo.

- Calma! Não vou te machucar. - Tentei sorrir, mas estava atordoada demais para tal.
- Você é a Angélica? - Perguntou ainda enrolado entre panos, o que abafou sua voz.
- Sou. Seu pai é meu amigo, você sabe onde ele está? - O garoto abaixou a cabeça, sumindo no meio do rosa. Aproximei-me e retirei a manta de seu rosto. – Ei, o que foi?
- O papai foi embora de novo, né? - Contraí os lábios.
- O que ele disse pra você?
- Que você ia chegar logo aqui, e que ele só ia comprar pão. – Franziu a testa para mim e abaixou mais a cabeça. Achei que ele estivesse chorando, e comecei a entrar em desespero.
- Garoto?
- Ele prometeu que nunca mais ia embora! Prometeu pra mim. – Respirei fundo novamente.
- Como você chama? – Fungou e espirrou, devido ter ficado com o rosto na manta, provavelmente. Observei o garoto espirrar e fiquei pensando se deveria fazer alguma coisa. Não entendo nada de crianças, e espero realmente que Caleb entre por aquela porta nos próximos minutos com um saco de pão.
- É... Então. Você gosta de... – Olhei em volta -... Água?

Web novela 2. Capítulo 16.

















16º capítulo
‘’Isso é possível?‘’

J.
- Moça? – Olhei para trás e um homem com estilo meio grunge estava com a mão estendida para mim. – Precisa de ajuda? – Sorriu.
- Ah. – Segurei sua mão e levantei-me. – Eu estou bem.
- Tem certeza? – Abaixou-se e pegou meus sapatos do chão. Senti meu rosto corar rapidamente. – Acho que são seus. – Entregou-me.
- É, são. – Sorri, sem graça. – Eu normalmente não sou assim, sabe... Desse jeito, que você ta me vendo, entende? – Ele riu.
- A Cinderela tem nome? – Sorriu, e puxou o louro cabelo um pouco para trás. Desnecessário, pois seu cabelo era bagunçado, num estilo Kurt.
- Julieta.
- Errei a história, então. – Entortou a boca – Prazer, Romeu.
- Sei. – Dei risada e revirei os olhos. – Sério, qual seu nome?
- Romeu, ora! – Insistiu.
- Ta, ta. – Suspirei. Olhei para os lados procurando por um banco e fui caminhando até ele, com os sapatos na mão. Sentei-me e percebi que o rapaz estava parado no mesmo lugar, olhando-me curioso. Não liguei e calcei um dos sapatos, e logo depois o outro. Voltei para onde estava e parei em frente a ele. – Que horas são? – Encarei seu relógio de pulso.
- Hora de almoçar. – Arqueei a sobrancelha. – Quase meio dia. – Deu de ombros.
- Isso é possível? – Bufei.
- O que é possível? – Encarou-me.
- O tempo passar tão rápido.
- Só quando a gente não está trabalhando. – Riu.
- E o que você faz da vida?
- Entrego pizza pra ganhar dinheiro e toco numa banda pra me divertir.
- E por que você não toca na banda pra ganhar dinheiro?
- Digamos que não é assim tão fácil. – Apertou os olhos.
- Acho que eu preciso ir embora. – Procurei meu celular pela bolsa e liguei-o quando achei.
- Não quer almoçar comigo? - Colocou as mãos nos bolsos da calça, o que chamou um pouco a minha atenção. Mas bem pouco.
- Não dá, tenho que ir. Preciso ligar para alguém. – Olhei para o nada e comecei a pensar onde Angélica estaria agora. Será que eu a veria de novo? Um estalo de dedos despertou-me dos meus pensamentos.
- Então, ta. – Sorriu de canto. – Adeus, querida Julieta. – Ri baixo e balancei a cabeça negativamente.
- Adeus, querido Romeu. – Sorri de volta e caminhei até um ponto de táxi. Fiquei o caminho até minha casa ligando para os números de chamadas perdidas no meu celular, mas nenhum era o dela. Ou ela não me atendia, não sei. Cheguei a portaria e esperei o elevador ansiosa, pois estava louca para tomar um banho e cair na minha cama. E tentar ligar para Ange novamente, claro.
- Por que não consigo parar de pensar nela? – Suspirei.
- Falou comigo, senhorita? – Perguntou um senhor ao meu lado.
- Não, só pensei alto. – Esfreguei os olhos e repeti mentalmente “Você está ficando louca. Muito louca”.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Web novela 2. Capítulo 15.


15º capítulo
‘‘How could you do it?’’ – Paramore.

A.
Estava acabando de contar o dinheiro recebido pelo cliente quando um estrondo vindo da porta chamou a atenção de todos. Caleb, ou o resto de alguém que costumava ser ele, entrou apressado e apoiou um de seus pesados braços no balcão enquanto eu guardava o dinheiro e me despedia do cliente com um sorriso sem graça. Encarou-me calmamente por alguns segundos, percebendo que todos o olhavam. Não deu atenção e puxou uma de minhas mãos com delicadeza.
- Eu preciso falar com você.

Senti o peso do olhar de Joe para cima de mim e puxei minha mão de volta.
- O que aconteceu... – Olhei ao redor e me senti mais observada do que nunca. Dei a volta pelo balcão, acenei para que viesse comigo e abri a porta do escritório, pra que entrasse. Joe caminhou rapidamente até mim, mas cerrei o olhar fazendo-o voltar ao que estava fazendo. Fechei a porta, e sentei-me na cadeira ao lado de onde Caleb havia sentado. Sua barba estava mal feita e parecia que não trocava de roupas há dois dias no mínimo. Segurava a aba de uma mala, que parecia pesada, e estava agora apoiada no chão. Seus olhos pareciam cansados, até mais que os meus. Olhou para mim meio de lado e suspirou.
- Você confia em mim, Angélica? – Engoli seco.
- Confio. – Entortei a boca e ele tornou a olhar para mim. – Não sei se deveria, mas confio.
- Sei que faz tempo que não nos falamos. – Virou para mim e soltou a aba da mala. – Mas eu preciso de você.
- O que está havendo? – Um calafrio passou pelo meu corpo todo e uma sensação ruim tomou minha mente por alguns segundos.
- Não posso te dizer agora... Na verdade, tenho que ir embora. – Franzi a testa e Caleb atirou-se de joelhos em frente a minha cadeira. – Por favor, é só ter um pouco de paciência e eu volto. É só por um tempo.
- O que? – Arregalei os olhos. – Do que você ta falando?
- Não posso falar agora, mas confie em mim. Eu não fiz nada de errado, e logo vou resolver tudo isso. Só preciso de um tempo.
- Caleb! – Levantei-me e aumentei o tom de voz. – Eu não posso te ajudar, se você não me explicar o que ta acontecendo! Levanta daí e me conta direito essa história! – Ele realmente se levantou, mas não foi para me explicar nada. Pegou a mala na mão e suspirou.
- Só me desculpe um dia. – Aproximou-se e beijou minha testa com uma imensa tristeza no rosto.
- Não, não, não! Eu não gosto de beijos tristes de despedida. Pode me falar o que você fez, eu vou te ajudar. Você é meu amigo, não é? – Indaguei, já chorosa. Começava a ficar preocupada de verdade agora.
- Desculpa. – Saiu quase correndo do escritório e minha mão não foi capaz de puxá-lo de volta. Bufei nervosa e preocupada. Antes que pudesse sentar novamente, Joe estava parado ao meu lado.
- Você ta bem? Ele te fez alguma coisa? – Neguei com a cabeça. – Fala comigo, Ange. O que ele queria de você?
- Não sei... – Suspirei olhando-o de baixo. – Mas pelo jeito, logo vou descobrir.

Web novela 2. Capítulo 14.


14º capítulo
‘’Eu gosto de você. ‘’

J.
Quando saí da sala Viviane conversava alegremente com uma conhecida do escritório. Disfarcei e fui embora sozinha. Caminhei por algumas ruas e desliguei o celular. A última coisa que eu queria era minha irmã perguntando-me sobre a entrevista.
Sentei-me em uma área cercada de bancos vazios na praça, em frente á uma escolinha. Observei os pequenos pulando nos brinquedos e correndo como loucos. Aproximei-me, e fiquei lembrando da minha infância.
- Oi moça. – Uma voz doce e fina chamava minha atenção.
- Oi. – Respondi, sem saber mais o que falar para a minúscula garotinha com faixa no cabelo e óculos com aros grandes e amarelos.
- Você é estranha? – Perguntou-me, enquanto sentava no chão e acostava-se à grade que nos separava. Um leve sorriso escapou pelos meus lábios, apesar de eu não fazer idéia do que ela falava.
- Eu acho que não. Por quê?
- A mamãe disse que não posso falar com estranhos. – Empurrou o óculos um pouco para cima com a pontinha do dedo indicador. Sentei-me ao seu lado, tentando me lembrar quando foi a última vez que sentei no chão. – Mas todo dia ela fala pra mim que o papai é estranho! – Irritou-se – A mamãe não pode falar com o papai?
- Tenho certeza que pode. – Respondi, meio sem jeito. Ela era meiga, e falar com ela me lembrava das minhas irmãs, o que me deixou abalada. Nós nos afastamos tanto nos últimos anos. Eu me afastei tanto de todos, aliás. Ou teria sido ao contrário!?
- Eu sou a Ana Carolina! Mas pode me chamar de Carol, porque você não é estranha. Como você chama?
- Julieta. Mas pode me chamar de Julie, porque eu gostei do seu óculos. – Pensativa, a menina tirou o óculos, analisou-o e colocou-o novamente.
- Mas esse é o nome da minha cachorrinha. Vou te dar outro nome. – Arqueei a sobrancelha e observei-a atentamente. – Lili! – Corcondei, rindo.
- Quantos anos você tem?
- Oito, e você, Lili? – Sorria vitoriosa sem algum real motivo, apesar de eu achar que estava feliz em dar-me um novo nome.
- Vinte e cinco. – Espantou-se.
- Você é velha, né? - Perguntou-me, intrigada.
- Um pouco, mas ainda não uso dentadura. – Fiz uma careta com a boca que a fez rir.
- Por que você tá aqui sozinha? – Olhou em volta. Acompanhei seu olhar pela praça, que atingia o máximo de três pombas habitantes do local no momento.
- Não sei, não tinha nada pra fazer. – Dei de ombros e questionei mentalmente o que eu realmente fazia sozinha lá.
- Se você quiser eu falo pra minha professora e ela deixa você ir na minha sala! – Sorriu. Acabei rindo.
- Ai, ai Carolzinha. Não precisa não.
- Você ta triste? - A menina encarava-me como se me conhecesse há mais tempo. O sinal da escolinha bateu, mas ela continuava olhando para mim.
- Um pouquinho. Só queria que gostassem de mim como eu sou.
- Eu gosto de você. – Mostrou todos os dentes em um só sorriso, se possível. Sua professora vinha recolhendo os alunos que estavam por perto ainda.
- Obrigada. Eu também gosto de você. – Retribui seu enorme sorriso.
- Tenho que ir, Lili! Tchau! – Saiu correndo e pouco a pouco o silencio predominava o local. Eu podia ouvir o vento derrubando as folhas das poucas árvoes que ficavam envolta da praça. As pombas, que agora eram cinco, emitiam barulhos engraçados, prendendo minha atenção por alguns segundos. Bem ao fundo, passavam os carros, o que não deixava o som de civilização desaparecer por completo.
Comecei a refletir sobre meu dia e repetir mentalmente o que a garotinha havia dito. “Eu gosto de você.” Era engraçadinho, até que percebi uma única lágrima descendo pelo meu rosto e sumindo entre meus cabelos. Me sentia bem, por algum motivo. Talvez por alguém ter dito com tanta sinceridade que gostava de mim. Mas também nostálgica. Talvez por lembrar da união perdida entre minhas irmãs e eu. Não sabia o que passava pela minha cabeça. Mas percebi que ainda estava sentada no chão de uma praça com roupa social, refletindo e chorando sozinha.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Web novela 2. Capítulo 13.


13º capítulo
‘’Posso estar sozinho, mas eu sei muito bem aonde estou. ’’Legião Urbana.

A.
Estava cheia de trabalho para fazer no estúdio, e alguns problemas para resolver na cidade, então a correria permitiu que o sono não me atingisse por umas boas horas. Não parecia que eu não havia dormido, mas estava cansada como sempre. Minhas olheiras tornaram-se marca registrada para os que me viam diariamente.
Enquanto refazia uma imagem de um cliente no papel, esperando que voltasse mais tarde para vê-lo, Joe comentava comigo que Caleb, um velho amigo, procurou por mim recentemente, enquanto eu estava no banco. Não o havia há anos, e não podia imaginar o que o cara me pediria dessa vez.
- Você disse que eu já voltava do banco?
- Falei, mas ele disse que voltava outro dia e saiu todo estabanado e apressado.
- Estranho.
- Esse aí não é aquele seu amigo que sempre te metia em encrenca? – Encarou-me, com desaprovação.
- Ele sempre se metia em encrenca, mas nada demais. Era bonzinho, mas acabava indo demais na onda dos outros.
- Sei. – Suspirou. Atirei uma borracha que acertou em cheio o outro lado do estúdio. – Já pensou em concorrer para tiro ao alvo? – Rimos juntos da minha descordenação e selou-se o assunto durante alguns minutos.
- Seja lá o que for, trate-o bem se me procurar e passe meu endereço a ele, certo?
- Mas Ange, esse cara pode ser perigoso!
- Mas nada! Ele é meu amigo e eu confio nele. E se você confia em mim, faça o que lhe pedi. – Bufou e relutou mais um pouco, mas acabou concordando.

Web novela 2. Capítulo 14.

14º capítulo
‘’Eu gosto de você. ‘’

J.
Quando saí da sala Viviane conversava alegremente com uma conhecida do escritório. Disfarcei e fui embora sozinha. Caminhei por algumas ruas e desliguei o celular. A última coisa que eu queria era minha irmã perguntando-me sobre a entrevista.
Sentei-me em uma área cercada de bancos vazios na praça, em frente á uma escolinha. Observei os pequenos pulando nos brinquedos e correndo como loucos. Aproximei-me, e fiquei lembrando da minha infância.
- Oi moça. – Uma voz doce e fina chamava minha atenção.
- Oi. – Respondi, sem saber mais o que falar para a minúscula garotinha com faixa no cabelo e óculos com aros grandes e amarelos.
- Você é estranha? – Perguntou-me, enquanto sentava no chão e acostava-se à grade que nos separava. Um leve sorriso escapou pelos meus lábios, apesar de eu não fazer idéia do que ela falava.
- Eu acho que não. Por quê?
- A mamãe disse que não posso falar com estranhos. – Empurrou o óculos um pouco para cima com a pontinha do dedo indicador. Sentei-me ao seu lado, tentando me lembrar quando foi a última vez que sentei no chão. – Mas todo dia ela fala pra mim que o papai é estranho! – Irritou-se – A mamãe não pode falar com o papai?
- Tenho certeza que pode. – Respondi, meio sem jeito. Ela era meiga, e falar com ela me lembrava das minhas irmãs, o que me deixou abalada. Nós nos afastamos tanto nos últimos anos. Eu me afastei tanto de todos, aliás. Ou teria sido ao contrário!?
- Eu sou a Ana Carolina! Mas pode me chamar de Carol, porque você não é estranha. Como você chama?
- Julieta. Mas pode me chamar de Julie, porque eu gostei do seu óculos. – Pensativa, a menina tirou o óculos, analisou-o e colocou-o novamente.
- Mas esse é o nome da minha cachorrinha. Vou te dar outro nome. – Arqueei a sobrancelha e observei-a atentamente. – Lili! – Corcondei, rindo.
- Quantos anos você tem?
- Oito, e você, Lili? – Sorria vitoriosa sem algum real motivo, apesar de eu achar que estava feliz em dar-me um novo nome.
- Vinte e cinco. – Espantou-se.
- Você é velha, né? - Perguntou-me, intrigada.
- Um pouco, mas ainda não uso dentadura. – Fiz uma careta com a boca que a fez rir.
- Por que você tá aqui sozinha? – Olhou em volta. Acompanhei seu olhar pela praça, que atingia o máximo de três pombas habitantes do local no momento.
- Não sei, não tinha nada pra fazer. – Dei de ombros e questionei mentalmente o que eu realmente fazia sozinha lá.
- Se você quiser eu falo pra minha professora e ela deixa você ir na minha sala! – Sorriu. Acabei rindo.
- Ai, ai Carolzinha. Não precisa não.
- Você ta triste? - A menina encarava-me como se me conhecesse há mais tempo. O sinal da escolinha bateu, mas ela continuava olhando para mim.
- Um pouquinho. Só queria que gostassem de mim como eu sou.
- Eu gosto de você. – Mostrou todos os dentes em um só sorriso, se possível. Sua professora vinha recolhendo os alunos que estavam por perto ainda.
- Obrigada. Eu também gosto de você. – Retribui seu enorme sorriso.
- Tenho que ir, Lili! Tchau! – Saiu correndo e pouco a pouco o silencio predominava o local. Eu podia ouvir o vento derrubando as folhas das poucas árvoes que ficavam envolta da praça. As pombas, que agora eram cinco, emitiam barulhos engraçados, prendendo minha atenção por alguns segundos. Bem ao fundo, passavam os carros, o que não deixava o som de civilização desaparecer por completo.
Comecei a refletir sobre meu dia e repetir mentalmente o que a garotinha havia dito. “Eu gosto de você.” Era engraçadinho, até que percebi uma única lágrima descendo pelo meu rosto e sumindo entre meus cabelos. Me sentia bem, por algum motivo. Talvez por alguém ter dito com tanta sinceridade que gostava de mim. Mas também nostálgica. Talvez por lembrar da união perdida entre minhas irmãs e eu. Não sabia o que passava pela minha cabeça. Mas percebi que ainda estava sentada no chão de uma praça com roupa social, refletindo e chorando sozinha.

terça-feira, 5 de abril de 2011

Web novela 2. Capítulo 12.


12º capítulo
"Quem é você?"

J.
As cortinas não combinavam com os sofás. Não sei como conseguiria me concentrar com esse fato diante de meus olhos. Espero que a sala do Senhor Salame tenha sido melhor decorada. Droga, chamei-o de Salame de novo.
- Vivi...
- Salmer! – Soltou num sussurro alto. Não sei como isso é possível, mas minha irmã consegue falar baixo e alto ao mesmo tempo. – Você já perguntou isso cinco vezes. – Olhou para o teto, ou imaginou algo além dele, e voltou o olhar para uma revista sobre negócios que estava aberta em seu colo, na mesma página, há mais de quinze minutos.
- Você ta realmente lendo isso? – Inclinei-me para espiar e ela puxou a revista, deixando cair o celular no canto da poltrona. Peguei antes que ela conseguisse recuperá-lo. A tela de mensagem estava aberta com um texto imenso listando alimentos, endereçado a minha mãe. – Me diz que isso não é pro Thiago!
- Ele precisa ter uma alimentação saudável! E não quero que a mãe dê alguma porcaria para ele comer. – Arrancou o telefone da minha mão.
- Saudável? Você vai transformar ele numa planta! – Ela me olhou por alguns instantes, como se eu falasse outra lingua.
- A senhorita pode entrar agora. – Uma voz doce anunciou aproximando-se de uma enorme porta de madeira.

___________


Estava tudo bem na entrevista, até ali. Eu sabia responder o que ele me perguntava, afinal uma faculdade dificilmente terminada de administração serviria para arranjar algum bom emprego. Mas, algo me intrigava no tal Sr. Salame. Parecia que ele queria saber mais do que minhas respostas baseadas em aulas e aulas cansativas por alguns anos.
- ... Por isso a técnica não mudou com o passar dos anos. – Conclui, minhas teses decoradas, enquanto o homem olhava-me pensativo.
- Julieta, me responda com sinceridade. – Desviei o olhar por alguns milésimos. – Quem é você?
- Ah. – Ah, o que? Uma mulher formada pronta para entrar no mundo dos negócios? Uma garota inexperiente que nem sabe direito o que está fazendo aqui? Algo saltava dentro de mim, anciosamente. Milhares de respostas me ocorreriam a cabeça, mas todas pareciam ter vindo de outras idéias, de outras pessoas. Procurei algo que fosse meu, qualquer coisa, algum mínimo detalhe que não tivesse sido esculpido pela minha mãe, sem que eu ao menos percebesse. Nada. O que eu sabia sobre mim, afinal? – Alguém que gosta de azul. – Levantei-me calmamente, peguei minha bolsa e olhei-o, meio ressentida. - E que não deveria estar aqui.

Web novela 2. Capítulo 11.




11º capítulo
‘’Sobre todas as pessoas, que se acham especiais. Não têm sequer um pouco de ardor. Se tenho que parar pra enxergar, e não morrer sem ter o que dizer’’ - Legião Urbana.

A.
Joe entrou no exato momento em que eu despejava a jarra de café pela pia. Arregalou os olhos e correu até mim.
- Você tá legal? – Bati na mão dele que quase alcançava minha testa.
- Nunca fui legal. Eu hein. – Arqueei a sobrancelha.
- Calma! – Arrancou a jarra da minha mão e cheirou. - Por que você está jogando... – cheirou novamente – Sim, café! Porque você está jogando café fora? – Dei de ombros e fui procurar meu colete.
- Não acertei o ponto três vezes, fazer o que? – Joguei algumas roupas para o alto.
- Se internar? Você nunca erra o ponto do café. – Gritou - Não, espera! – Pensou, olhou-me pasmo e voltou a gritar – Você nunca errou o ponto do café desde que eu te conheço!
- Impressão sua. – Coloquei o tênis no pé e saí pulando até que se ajeitasse sozinho.
- Não. – Olhou-me da cabeça aos pés. – Você tá... Arrumada? – Revirei os olhos.
- Estou do mesmo jeito que todos os dias. – Cocei o pescoço e deixei-o refletindo sozinho. Perguntei do corredor se ele queria tomar um suco comigo. Ele bateu a porta e seguiu-me fazendo um extenso e inútil questionário sobre o meu dia de ontem, pós quase atropelamento de carro.